Behemoth
08/05/2008
Hangar 110 – São Paulo/SP
Por: Vinícius Mariano/ Fotos: Vinícius Mariano

Confesso ao caro leitor e internauta que era uma questão de honra pessoal ir ao show dos poloneses do Behemoth para este que vos escreve. Fiquei frustrado quando, em razão de motivos de força maior, não pude assistir o show deles em 2004 na Led Slay, quando a banda aterrissou pela primeira vez em solo tupiniquim. E, desta vez, nada poderia dar errado.

O motivo disso é muito simples: o Behemoth é uma das bandas que eu acompanhei desde o começo, quando eles ainda eram uma grata surpresa no campo do black metal. Lembro-me de como um contato por carta me fez receber em mãos a demo K7 “From The Pagan Vastlands” – aquela com um cover para a “Deathcrush”, do Mayhem – que ouvi tão incessantemente que temi pela ruptura da fita. Uma época em que o estilo ainda era visto, principalmente pela mídia, como algo marginal e música bisonha feita por caras que não sabiam tocar mais do que três acordes, passando longe dos holofotes que ostenta nos dias de hoje. Dava também para se contar quantos fãs de black metal existiam naquela década e como estes eram vistos pelos outros fãs de metal.

De volta ao show, logo que chegamos ao Hangar 110, fomos cumprimentar velhos amigos e comer um lanche rápido para rechear a barriga. Ainda era cedo e, de relance, ouvimos alguns fãs comentando sobre a escolha do Hangar, segundo eles, um espaço em desacordo com a qualidade da banda e menor do que o show anterior. De fato, o Hangar 110 pode não ser a melhor casa de shows do mundo, mas seu ar “underground” torna o ambiente, de certa forma, charmoso, e de acordo com as expectativas de um evento de heavy metal. Outra coisa a se levar em consideração é o fato de, como o Hangar tem por finalidade deixar o público o mais próximo possível do artista, não existe aquela frescura das grandes casas de shows onde apenas “celebridades” e “groupies” – e não o FÃ de verdade – conseguem ter acesso ao grupo.

Na boca pequena, soube que a banda Hellishthrone não tocaria mais na abertura do show e sim apenas o, até então, desconhecido Enterro. A notícia me pegou de surpresa e me deixou um pouco decepcionado porque gostaria de ver a banda ao vivo. Seu álbum de estréia, “The Book Of War - Tales Of Forthcoming Battles For The Throne”, é um registro de fã para fã de black metal e deveras muito interessante.

Entramos na casa quando o Enterro havia acabado de entrar em cena. No palco, visualmente a banda me fez lembrar do velhinho Impurity, principalmente pelas vestimentas e o pedestal em forma de bode do vocalista Nihil. O som também agradou, mas esperei um pouco mais para ter uma noção mais completa daquilo que estava vendo e ouvindo. Logo, ao final dos poucos mais de 40 minutos de show, percebi que a minha opinião final não havia mudado e que acabara de conhecer mais um bom nome do underground do black metal nacional. O som segue a velha escola do berço negro, com raízes profundas na cena norueguesa e das primeiras bandas do estilo do metal nacional. E fazendo uma rápida passagem por seus membros, não era de se esperar por menos. Nas suas fileiras o grupo conta com o experiente guitarrista Alex Kafer (atual Darkest Hate Warfront), que integrou formações de respeito do underground carioca como Anschluss, Mysteriis, Songe d'Enfer, Genetic Deformation, Necromancer, além do baixista Osorium e do guitarrista Doneedah, que sem os pseudônimos são mais conhecidos, respectivamente, como o baixista China e o guitarrista Donida, do Matanza. Bacana, não? O grupo, que teve a sua apresentação reconhecida pelos presentes, que já se espremiam no local, ainda tocou uma versão fidedigna para “Bleached Bones”, do Marduk.

Após a saída de cena do Enterro, as cortinas se fecharam e o palco começou a ser montado para a entrada do Behemoth. Apenas a bateria de Inferno, diga-se de passagem, já estava montada. Enquanto isso, curiosos tentavam se aproximar do palco e levantavam as cortinas para registrar em suas câmeras o que rolava por baixo do pano.

Após um pouco de enrolação e uns últimos ajustes nos vocais, as luzes se apagaram sob a introdução de “Rome 64 C.E”, que abre o último álbum do grupo, “The Apostasy” (2007), as cortinas se abriram e pouco a pouco os integrantes foram entrando em cena para massacrar o público com a excelente “Slaying The Prophets Ov Isa”, que fez o Hangar quase desabar. Sem perder tempo, ao final, as cornetas da introdução de “Demigod” soaram como se desse o anúncio do fim do mundo, levando o público ao frenesi geral.

Nergal e o grupo pareciam não acreditar muito no que estavam vendo e com a reação incessante do público a cada nota executada. Anunciou, na seqüência, “Antichristian Phenomenon”, uma das minhas favoritas. Quem conhece bem o álbum “Thelema.6” já tem noção do poder de fogo deste petardo. O início cadenciado vai acelerando a cada compasso com dosagens cavalares de velocidade, ritmo este acompanhado pelo público que balançava freneticamente as cabeças e abria uma enorme roda. O núcleo em frente ao palco, de uma vista superior, parecia um liquidificador em funcionamento.

O Behemoth parecia um rolo compressor em cima do palco. Aliás, vale um destaque para o baterista Inferno, que é um verdadeiro colosso. Já ouvi alguns críticos dizerem que a banda costuma usar de artifícios tecnológicos para aumentar a sua massa de brutalidade musical em estúdio, mas isso só pode ter saído da boca de alguém que nunca viu o grupo ao vivo em ação. O Behemoth pode não ter em suas fileiras os melhores músicos do mundo, mas em cima do palco os caras são, tecnicamente, perfeitos. A impressão era de que você estava ouvindo o CD. Tudo executado nos pequenos detalhes e com a maior preocupação do mundo em ser fiel ao produzido em estúdio. Vale ressaltar que a qualidade de som do Hangar – por vezes questionada por alguns – estava excelente, contribuindo ainda mais para o espetáculo.

Desculpe a minha sinceridade em falar, mas na minha condição de crítico musical onde atuo há uma década na cena, tenho que concordar com um amigo estrangeiro que há muito tempo mora no Brasil e também estava no show, quando o mesmo comentou que “aquilo sim era um show”, algo que a maioria das bandas brasileiras, com raras exceções, não fazem em cima de um palco. A maioria sobe e apenas “toca músicas”, mas não fazem um show, de fato.    

“From the Pagan Vastlands”, da demo homônima – mas executada na versão em que aparece no primeiro álbum do grupo, “Sventevith” (1995) – e “Transylvanian Forest”, do EP “And The Forests Dream Eternally” (1993), ecoaram como símbolos isolados da fase black metal do grupo polonês. Sinceramente, eu nem esperava que eles tocassem mais as músicas dessa fase ao vivo, e fiquei bastante surpreso. A verdade é que, particularmente, eu tenho preferência pela primeira fase da banda. Mas o Behemoth só veio a se tornar o que é hoje quando mudou o seu estilo e começou a andar mais pelos campos do death metal extremo, tornando-se um dos maiores representantes, senão o maior, do estilo e em fama internacional.      

Apesar desta preferência pelos tempos antigos, dois álbuns da fase mais recente do grupo (iniciada no álbum “Pandemonic Incantations”, de 1998) estão, pra mim, entre os álbuns mais perfeitos do death metal contemporâneo: o já citado “Thelema.6” (2000) e o colossal “Zos Kia Cultus (Here And Beyond)” de 2002, que trata-se de uma obra-prima quase imbatível do metal extremo. Apesar de boa parte do público preferir os lançamentos mais novos – “Demigod” (2004) e “The Apostasy” (2007) –, conhecer mais sobre eles e o set ter sido baseado em cima destes álbuns, os pontos altos do show ficaram por conta das execuções de “As Above So Below”, “Christians To The Lions” e na ja citada “Antichristian Phenomenon”, irrecusáveis petardos clássicos dos álbuns do início deste milênio. Surpreende-me, aliás, o fato de só terem tocado apenas uma música do “Zos Kia Cultus (Here And Beyond)”, na opinião deste, o melhor álbum da banda dessa nova fase.

No final, completando quase 1h30 de espetáculo, o Behemoth atropelou os presentes com duas de suas mais potentes massas sonoras: “Decade Of Therion” e “Chant For Eschaton 2000”, ambas do não menos excelente álbum “Satanica”, de 1999, deixando o palco sob inúmeros urros, aplausos e gritos entoando o nome do grupo. Não resistindo aos chamados, Nergal (que, aliás, se mostrou um tremendo de um boa praça durante todo o show, interagindo bastante e fazendo até algumas piadinhas com o público) e sua trupe voltaram ao palco dizendo que não havia tempo para mais nada, mas que tocariam uma última música para finalizar. Os pedidos eram muitos, mas Nergal pegou o microfone e contou que teve a idéia de tocar esse som por causa de um episódio ocorrido na manhã daquele show, quando umas groupies invadiram o hotel onde a banda estava hospedada. A música em questão era uma versão avassaladora para o clássico “I Got Erection”, da “cult” banda norueguesa de punk ‘n’ roll Turbonegro, finalizando num total ritmo de descontração. Como grande fã de ambos, foi uma tremenda satisfação pessoal.

Após o fechamentos das cortinas, o grupo desceu e fez a alegria dos fãs atendendo a todos tirando fotos e distribuindo autógrafos. Não me contive e me aproximei de Nergal com a minha velha fita demo original do “From The Pagan Vastlands” para que ele autografasse. “Oh, essa é das antigas”, foi o comentário dele. Nem tive palavras para retribuir tamanha alegria.

Vinicius Mariano

Set list:

Intro: Rome 64 C.E.
Slaying The Prophets Ov Isa
Demigod
Antichristian Phenomenon
From the Pagan Vastlands
Prometherion
Conquer All
Christgrinding Avenue
Drum Solo
Slaves Shall Serve
At The Left Hand Ov God
As Above So Below
Summoning (Of The Ancient Ones)
Sculpting The Throne Ov Seth
Christians To The Lions
Transilvanian Forest
Decade Of Therion
Chant For Eschaton 2000

Encore:
I Got Erection (cover Turbonegro)
 
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