Clube da Esquina: Nas Minas da Música – Milton Nascimento e Lô Borges
19/04/2009
SESC Pinheiros – SP/SP

Por: Sérgio Gaia Bahia/ Fotos: Maristela Martins

No último dia 19 de abril, o SESC Pinheiros deu lugar ao fechamento das comemorações do projeto batizado Clube da Esquina: nas minas da música, que celebrou os quase quarenta anos do revolucionário LP de Milton Nascimento, Lô Borges e cia. Durante um mês inteiro, shows infantis, vídeos, oficinas, mesas redondas, ambientações e eventos literários, trouxeram à tona temas relacionados ao Clube, incluindo apresentações musicais dos artistas que o integraram. Nesse sentido, coube aos dois protagonistas, Milton Nascimento e Lô Borges, a tarefa de fechar as celebrações.
Foi assim que no domingo de encerramento, um SESC quase lotado recebeu os dois amigos para um show que primou pela informalidade. Depois de um vídeo repleto de cenas do Clube da Esquina e do Brasil da época, a banda de Lô Borges iniciou a noite, deixando claro que a veia dominante do show seria uma formação Rock ’N’ Roll: uma guitarra modelo Rickenbacker e um sintetizador com efeitos psicodélicos prepararam a entrada de Lô. Recebido com muito carinho pelo público e empunhando um violão, iniciou um repertório que misturou canções clássicas do Clube da Esquina com músicas de várias épocas de sua carreira solo. Algumas delas, mesmo desconhecidas, arrancaram certo entusiasmo da platéia, a exemplo da recente Segundas mornas intensões (álbum Bhanda, de 2007) e da roqueira Qualquer lugar (parceria de Lô e César Maurício do álbum Um dia e meio, de 2003), com uma leve guitarra distorcida. Canções mais conhecidas como Dois rios (parceria com Samuel Rosa e Nando Reis, sucesso na versão do Skank) também foram incluídas.

Mas é claro que os pontos altos na apresentação de Lô seriam as grandes canções que ele produziu com seus companheiros do Clube: Tudo que você podia ser (parceria com o irmão Márcio Borges) e a lendária Trem azul (sobre a qual o cantor nunca deixa de frisar já ter sido gravada por Elis Regina e Tom Jobim) foram alguns dos momentos de maior empolgação do público. No entanto, foi principalmente no repertório do Clube que a sonoridade da banda – a despeito dos ótimos músicos que a compõem – transpareceu uma certa padronização, reduzindo os ricos arranjos dessas canções a uma sonoridade excessivamente pop/rock. Mesmo com este detalhe e as poucas possibilidades vocais, Lô conseguiu ganhar a platéia com alguns bons momentos e munido de uma simpatia constante. “Gente, não se preocupem que tá chegando a hora do Milton... O cara tá aí, tá a fim...”, brincou ele, ciente de quem era a atração da noite. No set, ainda teve Janela lateral (outra criação do Clube) e a sensacional Clube da esquina 2, uma das melodias mais perfeitas do cancioneiro brasileiro.

Foi então que, ao chamado de Lô, a platéia entoou o coro de “Bituuuuca” e viu entrar no palco o astro Milton Nascimento que, ovacionado, dirigiu-se a um piano de calda colocado no outro extremo do palco. Sozinho ao teclado, Milton fez ouvir alguns acordes discretos e seus inconfundíveis falsetes, dando início a Cais, uma das pérolas do Clube da Esquina. Na hora do famoso arranjo criado por Wagner Tiso, as luzes do palco revelaram uma segunda banda a acompanhar o artista. A partir daí, duas baterias, duas guitarras, um baixo e um teclado apoiariam Milton e Lô no restante do show, que foi, literalmente, uma conversa entre amigos. Muito à vontade, os dois contaram histórias, brincaram um com o outro e souberam levar ao público o clima de companheirismo que cerca a lenda do Clube. Seguiu-se Clube da Esquina 1 (a canção que rendeu o convite de Milton a Lô para que gravassem o primeiro LP juntos), as recentes Resposta (outra criação de Nando Reis e Samuel Rosa) e Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor (quando Lô teve de consultar o guitarrista para lembrar como a canção começava e ainda fez disso motivo de aplauso).  As pérolas Nuvem cigana e Nada será como antes trouxeram de volta o repertório do Clube, que se encerrou com Um girassol da cor do seu cabelo. A insistência do público, entretanto, levou os artistas a voltarem duas vezes ao palco. Na primeira vez, os dois executaram Para Lennon e McCartney, marco da carreira solo de Milton nos anos setenta. Na segunda, Milton deu o ar da graça sozinho, ao violão, entoando os belos versos Brigam Espanha e Holanda/Pelos direitos do mar/Brigam Espanha e Holanda/Porque não sabem que o mar/Porque não sabem que o mar... é de quem o sabe amar.

Milton foi o gigante de sempre e está com a voz em boa forma. Lô fez seu papel. Mas a principal mensagem da noite, em especial para quem conhece a história do Clube, foi seu argumento coletivo, de um evento na história musical do país que uniu a livre criação de artistas talentosos, com o apoio de uma indústria cultural ainda desprovida da sofisticação comercial com que viria a atuar posteriormente. Uma época em que os estúdios da EMI-ODEON estavam liberados ao bel prazer de Milton e de seus parceiros, que sem pressa nem pressão, criaram um disco seminal. Apenas o segundo LP duplo na história da indústria brasileira.

 

 

 
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