George Benson e Esperanza Spalding
07/06/2009
Via Funchal – SP/SP
Por: Sérgio Gaia Bahia/ Fotos: Henrique Luiz

Foi uma grata surpresa o que se viu na noite do último domingo, dia 06 de junho, quando o Via Funchal abriu as portas para receber o consagrado George Benson em mais uma passagem pelo Brasil. “Surpresa” porque, ao abrirem-se as cortinas, o glamour que se respirava antes do show foi interrompido pela performance de uma jovem artista de tirar o fôlego. Não que Esperanza Spalding fosse desconhecida do público, mas talvez não se adivinhasse que ela fosse ser tão ou mais aplaudida que o próprio Benson. O espetáculo começou com poucos minutos de atraso, quando sua figura foi vista adentrando o palco a caminhar tranquila, baixinha... Até tomar o microfone, soltar a voz e dobrar de tamanho.

Esperanza reúne todos os atributos de uma grande artista. Consegue fundir seu enorme virtuosismo como cantora e contrabaixista a um jogo de cena infalível – para o qual sua dança discreta, seu gestual e sua beleza, contribuem imensamente. É dona de um jeito simples e buscou comunicar-se em português com o público durante todo o show. Suas melodias, em geral, são de contorno e afinação dificílimos. Ora construídas por saltos bruscos e extensos, ora pela mescla do canto com o ritmo natural da fala. Os arranjos são dominados por levadas indefinidas de jazz, pop, tango e gêneros brasileiros (em algum momento se aproximou do samba de partido alto; em outro, do frevo). O diálogo da voz com o contrabaixo é de tamanha naturalidade que chega, às vezes, a aparentar improvisos simultâneos – tal como ocorreu em Midnight Sun. Esperanza também saiu-se bem ao trocar o contrabaixo acústico pelo elétrico, com destaque para a execução de Endangered species, do seu mestre Wayne Shorter. Já em Wild is the wind (Dimitri Tiomkin/Ned Washington), empunhou o arco do contrabaixo acústico para executar uma delicada melodia de introdução que, no entanto, logo evoluiu para a sonoridade intrincada que caracteriza suas leituras, onde é comum os instrumentos executarem frases rápidas, seguidas e entrecortadas, a sugerirem um diálogo inquieto que vai se dissolvendo no todo da sonoridade. A jovem Esperanza tem classe, doçura e simpatia suficientes para fazer tudo isso soar natural. Entre suas composições próprias, destaque para I know you know, com sua melodia cativante.

Após um breve intervalo, começou a cumprir-se a promessa de glamour que cercava o evento, com a entrada em cena da orquestra de cerca de trinta músicos, trazida por George Benson. O próprio Benson apareceu no palco logo em seguida, a encarnar sua faceta de mestre de cerimônias e, entre brincadeiras e ‘rasgações’ de seda com a platéia, anunciou seu show-tributo a Nat King Cole (acrescentando, no entanto, que “para todos ficarem tranquilos,” haveria uma sessão final com suas próprias composições). O público pôde, a partir daí, parar para ouvir canções consagradas de Cole executadas com os mesmos arranjos da época em que foram escritos e contando com interpretações de qualidade (aliás, destacou-se entre todas a atuação do regente e pianista Randy Waldman). A romântica Mona Lisa serviu de ponta-pé inicial, acompanhada apenas pela orquestra, ainda sem o acréscimo de baixo, bateria e teclados. Com o conjunto inteiro em ação, a noite seguiu com Breezin’, quando Benson empunhou sua guitarra pela primeira vez. O lendário jazzista dominou a cena do começo ao fim, divertiu-se com tudo, contou histórias sobre as canções e arrebatou o público paulista. Seguiu-se a belíssima Nature Boy; depois Unforgettable, quando cantou e dançou junto com a cantora convidada Janey Clewer (que não o acompanhou à altura, nem no jogo de cena, nem na afinação). Up & fly right e a canção de acento country That sunday, tha summer tiveram a participação de um excelente coral de seis vozes. “Isso é que eu chamo de cantar!”, dizia Benson, ou então: “Palmas para a orquestra!”; e todo o público o seguia como se fosse um programa de auditório. Após falar sobre a influência de Nat King Cole em sua própria música, o cantor reprisou Nature Boy, dessa vez contando com sua típica levada pop/soul, além de um solo cheio de categoria na sincronia entre voz e guitarra. Foi a ponte para o encerramento do tributo a Cole e o início do set de canções autorais de Benson. Entre baladas românticas consagradas – como Nothing is going to change my love for you e
In your eyes
– e hits de apelo dançante irresistível – Affirmation e Into the night –, Benson conseguiu terminar a noite com boa parte da platéia de pé, dançando e saudando-o no clima de festa e glamour que era, afinal, o objetivo do espetáculo.

 

 

 

 
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