Revista Souza Lima

“De A-ha a U2”

Alexandre Kazuo

 

De A ha U2Zeca Camargo
Editora Globo
471 páginas

 

A publicação já tem pouco mais de um ano e dado os holofotes que Zeca Camargo possui graças à Rede Globo, “De A-ha a U2” tornou-se um tanto quanto popular.

 

 

A idéia de Zeca seria apresentar ao público as melhores entrevistas que ele mesmo realizou com músicos e bandas encadeados em ordem alfabética, como pressupõe o título. Não se trata de uma idéia ruim, diga-se de passagem. O problema é que falta a Zeca Camargo uma verve literária um pouco mais enfática. Enquanto escritor, Zeca é um bom jornalista e apresentador. O produto final acaba se personificando em memórias dele, Zeca, a recordar as muitas entrevistas realizadas em sua já extensa carreira.

 

Senão, vejamos: Zeca Camargo – muito antes de ser apresentador do Fantástico – foi VJ da primeiríssima geração da MTV Brasil, surgida no início dos anos 90. O ‘cast’ ainda contava com nomes mais lembrados como Luiz Thunderbird, Casé ou Gastão Moreira. Além dos improváveis, Márcio Garcia, Astrid Fontenelle e Maria Paula. É desta época que constam as melhores partes do livro. No capítulo dedicado ao Nirvana, por exemplo, Zeca relata como a primitiva equipe da MTV Brasil conseguiu chegar à passagem de som do Nirvana quando a banda se apresentou em São Paulo no Hollywood Rock (1993). Zeca testemunhou uma ‘jam’ onde Kurt Cobain arranhava um riff de guitarra seguido de um grunhido frente ao microfone. Tempos depois, ao ouvir “In Útero”, Zeca constatou que viu Kurt parir a faixa “Milk It”. Na dificuldade de encontrar um artista para representar a letra ‘Q’, eis que temos um capitulo intitulado ‘Queensryche’. No entanto, Zeca usa a banda como pretexto para recordar a cobertura do Rock In Rio II, onde o Queensryche se apresentou ao lado de Judas Priest e Guns ‘N’ Roses (também presente no livro).

 

Zeca demonstra um conhecimento ímpar no que diz respeito a artistas pop. Rememora entrevistas do período já dentro da Rede Globo, como com Jennifer Lopez, Alanis Morrisette e Avril Lavigne. O próprio autor se diz preparado para reações adversas ao que ele escreve no capítulo dedicado a última. Ele louva seus artistas favoritos como Chrissie Hynde do Pretenders ou Bono Vox do U2. Recorda também uma curta conversa com um então desconhecido e estranho Radiohead e as péssimas entrevistas com um bêbado Eddie Vedder do Pearl Jam. Momentos marcantes como uma entrevista com o lendário David Byrne (Talking Heads) na casa do mesmo onde deveria ter acontecido outra com Tom Zé. As dilacerantes palavras de Cazuza assumindo-se portador do vírus HIV, na época em que Zeca ainda prestava serviços para a Folha de S. Paulo.

 

O resultado final acaba sendo um tanto quanto irregular. Uma vez que seria editada e publicada, a obra poderia trazer apenas as entrevistas realmente relevantes do autor, independente de critério alfabético ou outro qualquer. Os capítulos não são interligados e o leitor pode ir direto nas páginas dedicadas aos seus artistas favoritos. Zeca Camargo, que parece ter muita afinidade com Nick Hornby, as várias listas de ‘cinco mais’ ao longo do livro são sintomáticas. Ele realiza aquilo que faz de melhor: relata fatos de maneira dinâmica como todo bom jornalista deve fazer. Sim, vale uma conferida.

 

Alexandre Kazuo

 

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