Eric Clapton: A Autobiografia
Editora Planeta
Trad: Lúcia Brito
394 páginas
Finalmente o guitarrista Eric Clapton nos concede a sua própria autobiografia. E dizer que o mesmo tem muita história para contar seria, no mínimo, redundante.
Quando criança Eric era chamado de “pequeno bastardo” por um tio. Clapton viveu a infância numa pequena cidade no interior da Inglaterra. De fato, não conheceu o pai. Filho de mãe solteira, cresceu acreditando que sua progenitora era uma tia e que seus avós eram seus pais.
Eric nos relata a primeira vez que viu uma guitarra Fender (um baixo Precision, na verdade) empunhada pelo baixista que acompanhava Jerry Lee Lewis num programa de TV. Naquele momento ele descobriu o que queria pra si.
Clapton fala sobre seus primeiros violões (o segundo foi um Washburn comprado sem saber direito que se tratava de um) e descreve os primeiros contatos que teve com a música, como a entrada e uma fracassada passagem por uma escola de arte.
A autobiografia ganha intensidade e realmente chama a atenção quando o autor rememora o início de sua carreira, em Londres. Não era simplesmente a cena londrina e sim a formação de uma cena musical tão especial. Eric Clapton testemunhou e foi parte dela.
Ele se recorda dos primeiros bares onde tocou. De um certo Mick, um certo Keith e um certo Brian. Às vezes, Mick ficava gripado e com dor de garganta e Clapton cantava em seu lugar. Eram os Rolling Stones ainda em seus primeiros dias. Lá fora os Beatles já começavam a mostrar a que vieram. Eric se lembra de Paul McCartney cantarolando uma versão primitiva de “Yesterday”. O título provisório era “ovos mexidos”. Formou-se um grande laço de amizade com George Harrison, que mais tarde o convidaria para participar da gravação da faixa “While My Guitar Gently Weeps”, presente no “White Album”.
A primeira grande experiência numa banda não poderia faltar. Clapton se junta ao The Yardbirds bem no início. O guitarrista, que se dizia fiel ao blues e parecia querer fugir da fama, abandona o grupo pouco depois de seu primeiro registro fonográfico, sendo substituído por Jeff Beck. Depois se junta a banda de John Mayall, grupo o qual também abandona quando estavam próximos do estrelato. A essa altura alguém escreveu a frase “Clapton is God” num muro ou nas paredes de algum ônibus em Londres. Nascia uma lenda.
Um dos pontos altos é o relato daquilo que havia por trás do Cream. Ao contrário do que se imagina o Cream não ruiu por causa de um choque de egos ou coisa parecida. Jack Bruce e Ginger Baker possuíam diferentes personalidades sim, porém, seus conflitos freqüentes eram os menores dos problemas. Segundo Clapton, o Cream teria ruído após uma turnê de cinco meses na América. Excessos, maratona de apresentações e o uso desenfreado de substâncias ilícitas teriam minado a sanidade dos integrantes. Eric também deixa transparecer certo temor de estagnar-se e tornar-se prisioneiro da fórmula musical do Cream. “Disraeli Gears” é hoje um clássico. Em sua época passou um tanto quanto despercebido, demorou a atingir o topo das paradas. No ano de seu lançamento (1967), concorreu “apenas” com discos como “Are You Experienced” e “Sgt. Peppers”...
Na seqüência, temos um olhar a respeito do cultuado Blind Faith, a formação de Derek and The Dominos, que dá origem ao álbum “Layla”, inspirado na esposa de George Harrison, Pattie Boyd, por quem Eric se apaixonou. Segue-se o seu declínio e o agravamento da dependência química, o desenrolar de sua carreira solo nos anos 80 e a dolorosa perda do filho Connor já adentrando nos anos 90.
O epílogo é emocionante. Clapton paga tributo aos grandes que o influenciaram (Buddy Guy, Steve Ray Vaughan, Hendrix, Ray Charles, Little Walter, B.B. King) confidenciando ao leitor o momento em que Muddy Waters o enunciou “filho adotivo” e herdeiro do legado do blues.
Eric Clapton conquista o respeito do leitor, sobretudo, pela fidelidade para consigo mesmo e para com seus princípios. Se eu tivesse que definí-lo em uma palavra, diria simplicidade.
Em suma, “Eric Clapton: A Autobiografia” apresenta-se como um item essencial, assim como toda a sua obra.
Sobre o colunista: Alexandre Kazuo Aoki é escritor, professor de filosofia e dublê de baixista |