“Slash”
Slash e Anthony Bozza
Tradução: Tina Jeronymo
Editora Ediouro
Página: 464

Como se tornou habitual no mercado editorial nos últimos tempos, Slash também se juntou a um escritor e deu vazão às suas memórias e biografia no bom lançamento simplesmente intitulado “Slash”. Não sou fã dos Guns ‘n’ Roses, mas também não tenho nada contra. Algo que sempre achei curioso foi a ausência de referências no que dizia respeito a Slash antes de seu surgimento como guitarrista do Guns ‘n’ Roses. Informações e registros a respeito de ex-bandas, projetos, origens sempre foram escassos, ao menos para mim. O nome verdadeiro dele eu só descobri pouco mais de um ano (tenho 27), numa breve nota que li numa revista que noticiava o lançamento do livro Reckless Life, de autoria de Marc Cânter (ainda sem tradução no Brasil). Ali, Canter (grande amigo do guitarrista) relata os bastidores do disco “Appetite For Destruction” (1987) e seu primeiro encontro com Saul Hudson (nome verdadeiro de Slash)!

Aqui Anthony Bozza realizou um bom trabalho ao deixar transparecer os mais profundos sentimentos que Slash geralmente não expressa em palavras e sim através dos seus solos. Bozza também foi responsável pelas biografias do INXS e “Tommyland”, de Tommy Lee (Motlëy Crüe), ambas inéditas no Brasil.

O mundo das artes sempre foi uma constante na vida de Slash. Sua mãe, Ola, era figurinista e chegou a trabalhar com David Bowie. Tony, seu pai, era um artista plástico natural de Stoke on Trent, na Inglaterra, onde Slash nasceu. Os Hudson mudaram-se para a América pouco depois.

Na infância, o fato mais engraçado com certeza foi um episódio onde o jovem Saul foi à casa de uma menina e ao invés de ‘dar os pegas’ nela, ficou por duas horas seguidas ouvindo o disco “Rocks”, do Aerosmith. Saul deixou-se hipnotizar pelos riffs de Joe Perry e Brad Whitford, ali pelos seus 12, 13 anos. Se não estava tentando tocar guitarra, estava vadiando pelas ruas de Los Angeles com seu ‘comparsa’ Steven Adler (futuro baterista do Guns ‘n’ Roses).  O apelido ‘Slash’ foi recebido na casa de um amigo de infância. O pai desse amigo era o ator Seymor Cassel e, assim, nomeou o jovem Saul ao perceber sua inquietude, perspicácia e atitude dinâmica. Batizava-se a lenda.

Pouco a pouco a narrativa se torna mais sombria e densa a medida em que Slash deixa de ser o menino que sonhava ser guitarrista para se tornar o junkie completo. Não por coincidência, este momento de transição corresponde ao período em que o núcleo criativo do Guns ‘n’ Roses se unifica (a saber: Axl Rose, Izzy Stradlin, Duff McKagan, Steven Adler e o próprio Slash), entre idas e vindas de integrantes do Hollywood Rose e do LA Guns, do talentoso guitarrista Tracii Guns. É o período que antecede a gênese de “Appetite For Destruction”, um álbum cujas canções são frutos do consumo de heroína. Segundo o próprio Slash, Izzy Stradlin e ele consumiam a droga frequêntemente naquela época. E, por incrível que pareça, o efeito da heroína – de alguma maneira – estimulava a criatividade de ambos. Se Baudelaire tivesse uma guitarra não faria melhor...

Destes relatos de Slash a respeito dos idos dos anos 80, temos algumas parcerias inusitadas sendo apresentadas também. Ele teria feito um teste junto ao Poison perdendo a vaga para C.C. De Ville. Slash foi reprovado não por falta de talento e sim por sua maneira despojada de se vestir (?!). Outra ‘parceria’ surpreendente foi a proximidade com Dave Mustaine. Slash se reunia com o guitarrista/vocalista/líder do Megadeth para consumir heroína e compor riffs em algumas jams. Revela quase ter se juntado à banda de Mustaine. Era o período em que o Megadeth tentava estabilizar uma formação, na época dos álbuns “Peace Sells...”’ e “So Far So Good So What”. O Guns ‘n’ Roses, por sua vez, procurava um produtor apto a assumir as gravações de seu ‘debut’, além de estar prestes a lançar o EP “Live Like a Suicide”.

Alguns detalhes da vida de Slash chegam a assustar como quando logo na introdução, o mesmo afirma ter vivido em companhia de um tipo de desfibrilador necessário para monitorar suas batidas cardíacas, após problemas diagnosticados dado ao abuso de álcool. O guitarrista já estava fora do Guns e o fato ocorreu pouco antes de seu retorno para a cena musical com o Velvet Revolver. Outro momento notável é quando Slash relata uma semana de reuniões da qual ele ficou encarregado de comparecer em Nova York. Seriam encontros com managers da gravadora prestes a lançar “Appetite For Destruction”. Slash ficou encarregado de supervisionar a confecção do merchandising. Seu amigo e baixista, Todd Crew, aparece no hotel desesperado. Rompera com a namorada e fora chutado de sua banda, o Jetboy. Slash conforta o amigo – abalado e alcoolizado – carregando-o por toda Nova York enquanto cumpre os seus afazeres. Ao fim do dia, Todd Crew acaba sofrendo uma overdose e morre em seus braços. Ainda que perturbadora, Slash dá vazão a uma crônica nova-iorquina impressionante. Sim, os momentos decisivos da (conturbada) vida do Guns ‘n’ Roses ocorridos nos bastidores da tour “Use Your Illusion” são detalhadamente descritos.

Se Slash fosse um pouco mais disciplinado, sua obra poderia ter sido mais ampla. Mas o mesmo não se diz arrependido de nada que tenha feito. De Guns a Velvet Revolver, passando por Slash Snakepit (seu projeto solo) ‘it’s only rock ‘n roll’. Sua humildade e honestidade chamam a atenção, sobretudo por se tratar de alguém que se tornou um ícone dos ‘rockstars’. Slash sequer se preocupa em ostentar os próprios discos de ouro que já recebeu. Antes da fama, Saul Hudson trabalhava para poder se dedicar à guitarra e ainda pagar o aluguel do apartamento em que vivia com a mãe.

Particularmente, não vejo exagero em colocá-lo enquanto herdeiro da tradição de guitarristas ingleses como Keith Richards, Jeff Beck ou Ron Wood. E a leitura é recomendável, sim! Slash parece querer colocar um ponto final no assunto Guns ‘n’ Roses, dar uma satisfação aos fãs. Axl Rose parece ter uma vocação inexplicável para ser celebridade. E Slash ainda é Saul Hudson, o menino que sonhava tocar guitarra numa banda de rock...

Alexandre Kazuo

 

 
SL Revista Eletrônica - Todos os direitos reservados - www.slrevistaeletronica.com.br