Tempestt
Por: Paula Witchert/ Fotos: Divulgação
Formado por BJ (vocal), Léo Mancini (guitarra), Paulo Soza (baixo) e Edu Cominato (bateria), o grupo paulistano Tempestt mantém um belo currículo. Tocou ao lado de grandes nomes como Jeff Scott Soto (Journey, ex-Talisman), Billy Sheehan (Steve Vai, ex-Mr. Big) e recentemente abriu a única apresentação do vocalista Eric Martin (ex-Mr. Big) em São Paulo. Com um trabalho que mescla o hard rock, o heavy metal e o prog metal, a banda, que iniciou com o nome “Riverside” tocando grandes clássicos do rock, lançou recentemente seu debut “Bring ´Em On” pela Dynamo Records, se classificando como o segundo colocado da seletiva Wacken Metal Battle.
Paula Witchert
PW – Primeiro a pergunta clássica: por que Tempestt?
BJ – Na verdade eu, o Edu e o Léo pensamos e testamos muitas coisas. O Edu chegou com várias idéias e uma delas era Tempestt. Não há nada muito específico. Tem gente que pensa ser por causa do Joey Tempest, do Europe, não tem nada a ver. Inclusive existe uma banda de prog chamada Tempest muito antiga e por isso fizemos Tempestt com dois “t” para não ter problema. É uma coisa que soa forte e tem muito a ver com a gente.
PW – Há muito tempo existe a promessa para o lançamento do primeiro álbum do grupo. Houve algum motivo especial para esta demora?
BJ – Tudo tem seu tempo e as coisas amadurecem, as músicas vão amadurecendo. A gente tinha uma outra formação e passamos a tender para um lado mais progressivo, para um hard pesadão. Antigamente éramos mais um hard rock na essência e hoje temos um pé no heavy metal. Algumas músicas que soltamos na época estão diferentes no disco. Amadurecemos os arranjos, sem viajar muito, porque se viajar demais em arranjo você fica louco. Quando ficou legal fizemos a pré-produção do CD. Como as coisas para uma banda que não é tão conhecida são mais difíceis, a gente penou um pouco por causa de horário de estúdio. Ao gravar, você não pode fazer as coisas correndo. Como gravamos num estúdio bem legal, tínhamos de nos submeter aos horários, porque muitos artistas gravavam lá. Outro lance foi o tecladista, que nos fez sofrer um pouco, mas nós mesmos fizemos os arranjos de várias coisas e diversos tecladistas gravaram no disco, o que também nos fez depender dessas pessoas. A nossa parte acabamos rápido, o difícil foi fazer os arranjos de teclado, mas foi muito legal, porque as pessoas que escolhemos são bacanas. Agora eu acho que é a hora certa!
PW – Vocês lançaram a demo cerca de dois anos atrás com cinco músicas inéditas. Elas tiveram seus arranjos modificados no álbum oficial. Qual o motivo da mudança?
BJ – A gente vai amadurecendo. Aí um chega com idéia e os outros dizem que não ficou legal, ou sim, rolou. O que faz o Tempestt ser a nossa ‘menina dos olhos’ - até porque temos vários trabalhos – é a gente ter uma química legal e isso é primordial numa banda, pra fazer um som bacana. O que faz a diferença é que somos amigos e não apenas colegas de banda. A gente toca junto há muito tempo, desde que a banda era Riverside e tocávamos só covers, depois teve o Journey Cover e virou o Tempestt. Tudo isso é o ‘manjar da essência’, é o que rola bastante entre a gente. Na verdade, o que gravamos para a época estava legal, mas para agora, não. Então, resolvemos modernizar sem viajar muito.
PW – Bom, pelo que disse, vocês compõem juntos. É isso mesmo ou tem alguém que sempre chega com algo pronto?
BJ – Tem músicas que são minhas e do Leonardo, outras são do Leonardo e do Edu e outras ainda somente do Léo. Mas a gente sempre senta junto. A maior parte das letras é do Léo, tem uma que fiz com ele e algumas coisas também do Edu, a gente acabou fazendo quase tudo junto. A maioria das coisas mais de riffs, o Léo chegava com a idéia e a gente trabalhava em cima. Fazia linha de vocal, trabalhava em cima de letra. Mas nada de fazer sozinho a música e gravar. Só uma música ou outra que era só do Leonardo e aconteceu isso, ou trabalhava só a melodia de voz. Básico de todas as bandas, não tem nada muito específico. Não teve regra, cada um chegava com um negócio que de repente podia ter a ver ou não. Algumas coisas que eu fiz não tinham a ver. A música era bacana, mas ao mesmo tempo não era o que a gente queria pôr no disco. Isso aconteceu com outras músicas, como uma minha e do Léo que a gente deu pro Shocker. Fomos selecionando, várias bandas fazem isso, tem várias músicas e depois escolhem.
PW – Qual a concepção de “Bring ´Em On”? O que vocês querem mostrar com este álbum?
BJ – Este álbum é o Tempestt. A gente não fez nada pensando em agradar o público de hard, de heavy ou prog, a gente fez o nosso som, o som da veia. Não ficamos pensando “vamos fazer isso aqui porque japonês gosta!” ou “isso aqui é legal porque na Europa está rolando, agora é moderno!” A gente fez o nosso som. Eu acredito muito nisso. Nada contra em quem pensa em fazer, cada um trabalha do jeito que acha legal. Pode ser que a gente venha a fazer isso, não posso dizer que não, mas neste CD não pensamos em nada, fizemos e pronto!
PW – A exemplo da maioria dos músicos do país, todos vocês tem trabalhos paralelos na área. Fale um pouco sobre seus outros trabalhos e, até como conselho para quem está começando, qual o critério que vocês adotam, principalmente agora com o lançamento do disco, para definir as prioridades e conciliar os trabalhos.
BJ – No Brasil, você sobrevive de música e não vive de música. No heavy metal e no rock and roll você tem de provar primeiro lá fora para depois entrar aqui, a galera olha de outra forma quando você tem uma gravadora lá fora ou coisa parecida. O pensamento do Tempestt é lutar, não estamos aqui para brincadeira. É claro que é um registro da nossa vida, é uma grande vitória. Vamos brigar como todo mundo briga por um lugar. Existem várias bandas brasileiras extremamente competentes que abriram um caminho pra gente e outras bandas do Brasil. O caminho que o Angra, o Shaaman e o Sepultura abriram para as bandas brasileiras terem respeito lá fora é muito grande. Só temos a agradecer esses caras que conseguiram derrubar esta barreira e mostrar que o som de banda brasileira não perde nada para a de fora, muito pelo contrário. Existem vários trabalhos incríveis das bandas, um grande capricho do metal brasileiro. E muitas outras bandas, tipo o Korzus, que estão aí há bastante tempo e não tem nem o que falar. São coisas que eu escutava já há muito tempo. Essas bandas abriram esse caminho e tem respeito lá fora. A galera já olha banda brasileira de outra forma, graças a eles.
PW – Gostaria que falasse um pouquinho do que você faz fora do Tempestt.
BJ – Eu toco numa big band, o que é legal porque canto vários estilos. Fazemos bailes de formatura e outras coisas bacanas, até música pop. É uma banda grande e eu aprendi muito com este trabalho. Você acaba tendo uma pegada para outras coisas e aprende a dominar a voz – falo de mim como cantor –, cantar outras coisas de uma forma diferente e, às vezes, a usar o que aprendeu ouvindo grandes cantores para tirar músicas e no trabalho autoral. É uma escola incrível.
Eu tenho também o Journey Cover que é parte do Tempestt, já desde 99 conquistou um público bem bacana, graças a Deus. A galera é fiel, vão nos shows e curtem. Fã de Journey brota do chão, você não acredita! (risos)
Eu dou aula de canto e tenho uma outra banda muito legal, a Midnight Groove, que são os maiores músicos que eu já toquei fora o Tempestt. São uns caras malucos que tocam muito, mais naquela veia soul, mais música negra e pop/soul. Foi uma grande escola pra mim. Nesta banda uma vez a gente decidiu só tocar músicas do Toto. Muita gente não sabe nem o que é Toto, não tem noção. Acha que é só “Africa” e “I´ll Be Over You”. Toto é uma doidera, é prog pra caramba, quase tão prog quanto Yes, numa dosagem menor, é claro. As coisas novas do Toto são incríveis, de cair o queixo. Vários amigos que eu mostrei dizem que não é Toto. (risos) Isso também foi uma veia que eu tive de ir pegando. Os melhores cantores do mundo são negros, fora o Glenn Hughes que é branco e canta como negro. Dessas coisas, você pesca um milhão de outras, que são influências para você. Não que eu vá fazer melisma em músicas do Tempestt, mas são várias coisas que lhe ajudam e se misturam no que você aprendeu e nem sabe que está usando, mas que está dentro de você. A pastinha está lá no HD, sabe? (risos)
PW – “Bring´Em On” está sendo lançado no Brasil e na América Latina pela Dynamo Records. Qual a perspectiva? Existe algo fechado para o lançamento em outros continentes?
BJ – Fechamos com a Dynamo com uma perspectiva legal. A gravadora é bacana e o pessoal gostou bastante do nosso trabalho, ficamos muito felizes. Achar uma gravadora legal foi outra coisa que fez o lançamento demorar. Não ia adiantar nada a gente lutar e não ter uma proposta boa para lançar o trabalho. O Eric (de Haas) foi bacana com a gente e a proposta da Dynamo foi muito boa. Há vários outros nomes legais lá, como o Karma e o Dr. Sin. Estamos com uma boa perspectiva, conversamos bastante e achamos que a Dynamo era a gravadora certa para lançar o nosso trabalho. Trabalhamos em conjunto para que as coisas aconteçam. O álbum será lançado na América Latina inteira pela Dynamo e lá fora estamos com algumas negociações em vista, vendo o que é mais legal, mas ainda não fechamos.
Na verdade, precisa fazer uma estratégia, saber para onde e com quem ir. As coisas andam bem. Eu sempre falei que o Tempestt andava sozinho, acho que por causa da veia, de gostarmos muito do trabalho e a galera que curte ser verdadeira. Isso me deixa feliz.
PW – O álbum conta com a participação de Jeff Scott Soto e Hugo Mariutti. Comente um pouco este processo e o por que da escolha destes músicos.
BJ – Vou falar primeiro do Hugo, um cara que a gente admira absurdamente. Toquei com ele no Hencerforth, uma banda que adoro. Eu saí do grupo, mas continuo gostando. Eu fui no show outro dia e fiquei emocionado. Eu gosto muito do trabalho do Hugo e do Luís. Nos reunimos e pensamos que teríamos de colocar a participação de um músico brasileiro, daí o Hugo veio na cabeça, porque além de ser ‘brother’ e um cara incrível é um grande guitarrista. Eu e o Edu o admiramos, e o Léo, como guitarrista da banda, achou uma escolha muito bacana. Claro que no Brasil há vários guitarristas incríveis, mas o Hugo era um cara mais próximo da banda e nada mais legal do que chamar um amigo para participar no disco. Ele chegou no estúdio com o solo pronto, um cara super profissional. Passou duas vezes e gravou um solo maravilhoso!
O Jeff foi a maior honra do mundo. Quando ele veio ao Brasil pela primeira vez, tivemos de mandar uma música do Tempestt - era a primeira gravação de “Enemy in You” - porque ele queria saber que banda iria tocar com ele. Ele mandou um e-mail para o Carlão (Animal Records) dizendo que tinha gostado da banda e quando ele chegou foi ‘brodagem’ à primeira vista. Fomos comer na churrascaria e nos primeiros dez minutos ele me disse: “Você poderia cantar ‘Separate Ways’ comigo? Me dá este prazer?” E eu disse: “Se eu conseguir abrir a boca na hora, será o maior prazer pra mim!” E daí surgiu uma amizade bacana, fizemos o show com ele e foi incrível, uma das maiores experiências que tivemos. Na segunda vez que ele veio para o Brasil, tivemos o prazer de abrir o show, porque ele trouxe a banda, na ocasião teve também o Richie Kotzen com o Pat Torpen.
O Jeff sempre quis saber e ouvir os nossos trabalhos e me mostrar os dele. Ele tinha acabado de gravar o “Soul Sirkus”, ninguém ainda sabia o que era e ele me mostrou. Na época, ele já tinha gravado coisas com o Journey, uma gravação do Greatest Hits Live. Ele gravou cinco músicas para fazer um teste, porque o Neal Schon tinha avisado que poderia precisar. Eu fiquei amigo do Jeff neste naipe, daí eu disse que queria que ele cantasse uma música comigo ou sozinho quando fôssemos gravar o Tempestt. Mandamos três músicas para ele escolher e dissemos que preferíamos a “Insanity Desire”, mas enviamos mais duas. Ele gravou lá mesmo a que escolhemos e mandou. Quando eu ouvi, falei “não vou cantar esta música, deixa do jeito que está”. Mas ele fazia questão do dueto. Daí eu gravei a música inteira de novo e a gente editou de uma forma bem bacana e mandamos pra ele aprovar. Ele mandou um e-mail emocionado, dizendo que adorou tudo! Eu dou um berro de 14 segundos com ele! É uma coisa emocionante pra mim. Foi algo muito bacana porque hoje o Jeff é simplesmente o vocalista do Journey, então pra mim é a maior honra do mundo cantar com ele. Por isso que eu digo que tudo tem seu tempo e sua hora. O álbum está saindo na hora certa.
PW – Quais as expectativas para o show de lançamento no próximo dia 20 de abril? O que vocês estão preparando de especial?
BJ – A expectativa é a melhor possível. Estamos ensaiando já faz um tempo. Ficamos mais de um ano sem ensaiar na época da gravação do disco e no primeiro dia que ensaiamos aqui parecia que tínhamos tocado um dia antes. Agora teremos a participação do João Leopoldo, o tecladista que tocou na época do Jeff e agora voltou a tocar com a gente. Vamos ver se resolvemos este problema de tecladista! Ele ouviu o CD e adorou, mas nem teve oportunidade de gravar com a gente. É um cara incrível, toca muito mesmo. Tem vários outros trabalhos e mora em outra cidade então era meio difícil conciliar, mas agora ele faz vários trabalhos em São Paulo, grava trilhas de filmes e tudo mais. A expectativa no dia é que a galera compareça, vamos mostrar o trabalho pronto e se divertir com a galera, tomara que todo mundo goste!
PW - Vocês farão logo após o show oficial de lançamento do CD, a abertura do show do Eric Martin. Qual a expectativa para esta apresentação? Será o mesmo espetáculo de lançamento?
BJ – A gente recebeu no guestbook do site um recado da Patrícia (produtora do evento) pedindo para entrar em contato com ela. O Rick entrou em contato por email e ela disse que o Tempestt era a banda ideal para abrir o show do Eric Martin, tinha mais alguns outros nomes, mas nós éramos os preferidos. Pedimos apenas para não divulgar antes do show de lançamento porque as datas são muito próximas. Claro que as expectativas são as melhores possíveis. O Eric Martin é um dos maiores cantores do mundo, um cara que eu ouvi desde moleque, que adoro, sou fanático. Se eu tiver a oportunidade de cantar duas frases com ele, vou ser o cara mais feliz do mundo! Vou conhecê-lo com certeza e estou feliz demais! Tomara que ele curta o trabalho do Tempestt e seja mais um cara que a gente faça uma amizade bacana. É maravilhoso, estou tendo a oportunidade de conhecer os caras que eu mais gosto. O único que falta é o Steve Perry, este se eu conhecer eu morro na frente dele! (risos)
PW - Existe a possibilidade de se apresentarem com ele, a exemplo do Jeff Scott Soto e Billy Sheehan?
BJ - Não tem nada programado, mas se ele estiver na pilha, estaremos lá. Ele vem com sua banda, então a gente nunca sabe o que vai acontecer. De repente, se rolar uma interação será o maior prazer do mundo. Eu tive várias oportunidades de cantar com o Jeff músicas do Journey, inclusive. Quando ele veio em 2002 pra cá, pediu pra eu cantar no ensaio porque estava com a voz cansada. Eu tive de cantar as músicas dele, já tive que tremer na base e no intervalo do ensaio ele sentou no teclado do João e falou: “Canta aí!”, e tocamos várias coisas do Journey, eu cantando e ele fazendo backing. Surreal! Se eu contar, todo mundo vai dizer que é mentira! (risos) Várias coisas especiais aconteceram, fruto do trabalho do Tempestt. Eu torço para que role e venham muitos discos e que a gente fique cinqüenta anos tocando, de bengala! (risos gerais)
PW – Que história é essa de preparação de novo álbum?
BJ – Não digo um álbum novo. Sempre tem coisas que a gente vai fazendo. Se rolar uma inspiração você faz alguma coisa, mas estamos focados no “Bring ´Em On”. Existem sim coisas novas para começarmos a fazer, mas depois de um tempo.
PW – Muito obrigada BJ e sucesso para vocês!
BJ – Valeu Paulinha!
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