Paulo Flores
Por: Mariana Sayad / Fotos: Kazuo Watanabe/Conservatório de Tatuí

O 7º Brasil Instrumental realizado no Conservatório de Tatuí é idealizado e executado pelo Paulo Braga e Paulo Flores, que além de pensarem toda a programação, ainda participam de todas as etapas e eventos durante os dez dias.
Aqui, segue uma entrevista com o Paulo Flores em que fala do Festival e do pré-lançamento do seu projeto “Benê, o Flautista”.

Mariana Sayad

MS – Como foi a escolha do tema do Festival deste ano? Por que decidiram trabalhar com as composições do Maestro Branco?
PF – Nós temos conversado ultimamente para escolhermos os vivos, antes que morram (risos). Prestar homenagem para quem já morreu é muito bonito, só que é mais interessante realizar o trabalho com quem o fez. Então, existem algumas pessoas que temos de chamar, como o Branco, o Cyro Pereira, ou seja, pessoas que estão trabalhando, mas não têm muito espaço para essas coisas. É bacana fazer com eles.

MS – Qual é o principal diferencial deste festival?
PF – Esse é 2007. Os outros foram em 2006, 2005, 2004 (risos). No primeiro ano, nós montamos dez dias de evento com três shows por dia. Então, tinha a apresentação do meio-dia e outra que abria o espetáculo principal da noite. Essa estrutura se manteve nas duas primeiras edições. Depois, não conseguimos mais fazer, ficamos meio limitados e a cada ano limitava um pouco mais. Depois, criamos a Mostra, que foi uma forma de ganharmos espaço. Teve uma época, com horário para os grupos da escola ou dos professores. Tudo isso para continuarmos mantendo vários shows por dia, para ter essa energia de música o tempo todo. A diferença deste ano é ter voltado como era no começo, de conseguirmos fazer três shows por dia, sendo que o do meio-dia é tão importante quanto o último da noite.

MS – Por que este ano vocês abriram mais para a canção?
PF – Não foi esse ano. No primeiro festival, a Mônica Salmaso estava com a Orquestra Popular de Câmara. Em 2002, de novo a Mônica com a Orquestra e teve a Joyce também. O conceito cantor é o artista. A voz ainda é o principal instrumento de educação musical no Brasil, Villa-Lobos trabalhou com isso nos anos 30. Hoje, ainda continua assim, porque ninguém tem dinheiro para comprar instrumento. No interior, as pessoas trabalham com voz e flauta doce.

MS – Como surgiu a idéia de montar a oficina do Itiberê?
PF – Nós dividimos o festival em duas fases: a primeira com a Mostra com dez shows seguidos. Nesta primeira etapa, nós trabalhamos com workshops de convidados e uma oficina. Nós estávamos pensando em fazer com o Uakti para termos uma oficina instrumental. Mas preferimos o Itiberê, pois seria montada aqui, com o intuito de fazer uma “Orquestra Família Tatuí”. E deu super certo, principalmente, de ter um público cativo.
Em cada ano queremos promover uma oficina diferente, porque uma das características do festival é ser aberto. Nós queremos dar espaço para a música trabalhada. Outra coisa, com a cooperativa, nós abrimos um espaço bem bacana: nós trazemos alguém para fazer um workshop e montamos um grupo aqui para tocar com ele. Esse trâmite de parceria, do conservatório com a cooperativa, propicia coisas interessantes. No fundo, são pequenas oficinas, em que o cara vem, faz um time com o workshop à tarde e toca com ele à noite.

MS – Quais são as maiores dificuldades de se criar um festival como o Brasil Instrumental?
PF – Não dormir (risos). Na verdade, tudo que gostaríamos é o que está acontecendo agora: dão uma verba e nos deixam trabalhar, sem emperrar em processos políticos. Nós estamos vendo que o Brasil tem um problema miserável, quantas pessoas emperram por causa de política? Deixa o pessoal fazer! Dá prazer realizar este festival, nós mexemos com educação e arte. É boa essa movimentação e dá muita satisfação ver as pessoas saírem daqui felizes. Essas manifestações estão acabando também. Por isso, eu gostaria que tivesse festivais no país inteiro.

MS – Vocês gostaram da Mostra deste ano?
PF – Foi o nível mais alto de trabalho, foi difícil escolher. Este ano nós fizemos de forma diferente, pedimos cinco cópias de cada disco para dar um para cada jurado ouvir. Depois, nos reunimos para discutirmos. Muita coisa boa.

MS – Como foi o pré-lançamento do Projeto “Benê – O Flautista”?
PF – Foi um test drive. Eu gostei de fazer isso em Tatuí, pois estou em casa, além disso, abrir o festival com ele, que foi um tremendo instrumentista, fora outras coisas.
As pessoas têm uma falta de entendimento do universo cultural e não associaram muito a idéia. Eu vou ver o andamento disso, foi tudo muito corrido. Eu gostei do formato. Este projeto é para divulgar também a música brasileira, porque não difunde só o músico Benedito Lacerda, mas toda uma época, onde a música brasileira foi estruturada, a partir dos anos 30, quando começa a Era do Rádio e a linguagem musical que usamos até hoje. Essa mistura do que veio o maxixe, o choro, o samba, resultou nisso, depois, se somou ao jazz e outras informações. Então, é bacana.
Eu pretendo levar isso para vários lugares e gostaria de ver este formato com as caricaturas que ilustraram, com a relação biográfica de cada personagem que participou. O pessoal tem de saber quem foi a Chiquinha Gonzaga, o Paulo Tapajós. Gente que fez música e muita coisa, que ninguém conhece, está tudo esquecido, pois o Brasil não tem memória. Ninguém lida com isso.
Sempre me perguntam quem tocou as músicas, e foi o próprio Benedito Lacerda. Há vários projetos, mas tocando hoje, então os músicos tocam para fazer o resgate. Para mim, isso não é resgate, é repertório. O resgate é você ouvir o que foi feito. Essa confusão eu não sei se está vinculada ao ego, pois todos querem se mostrar. Não estão preocupados com a história ou com a cultura. Eu achei muito bom e estou feliz com o projeto, o resultado, do jeito que ele saiu e como os interessados recebem isso, o que já me deixa muito satisfeito.

MS – São quantos volumes? Qual é a previsão de lançamento dos outros?
PF – São três. Não há previsão nem de realização. Eu ia mandar à Petrobras este ano, mas acabei de fazer. Estamos realizando um trabalho com a mídia bem legal. A partir disso, que terá o lançamento em São Paulo, pretendo fazer coisas menores. O importante do projeto é dar continuidade. Então, se eu mandasse agora, seria precipitado, porque é legal ver o que aconteceu e o que vai acontecer. Aproveitar isso para pensar. Igual ao festival, que faz um ano, ver o que aconteceu para tentar ir pra frente no outro. Eu pretendo montar algumas formações musicais diferentes para o lançamento, pois é muito caro levar a cambada. Não dá para fazer do jeito irreverente que eu gosto, ou seja, o cara ouve no disco como o Benedito toca e depois ele vai ouvir como eu toco - o que não tem nada a ver. Tudo com outra estrutura. O importante é levar o projeto. Acho que dá certo e fica interessante.

MS – Como você concilia os projetos e o festival com a sua carreira de músico?
PF – A vida nos apresenta as coisas e há prioridades. A prioridade para mim é fazer essa parte de escola, talvez, algo político-cultural. Isso eu acho mais importante, porque é umbigo demais fazermos música. Você não tem público, ou seja, não se envolve numa realidade cultural. Você não está realizando nada pra ninguém, então, para desenvolver esse tipo de música, que gostamos e é mais pesquisado, necessitamos de público e pra isso precisamos construí-lo. Para isso, nós devemos dar acesso à cultura da música e à arte.
Alguém precisa fazer isso, na verdade, todo mundo deve fazer isso. Quanto mais gente envolvida tiver, melhor, chegar a posições de poder e determinar coisas, como estar em Tatuí, onde temos o poder de fazer as coisas. Nós conquistamos isso, a escola tem estrutura para isso. Então, outros lugares com estrutura poderiam fazer festivais também.
Eu me envolvo na cooperativa, porque sem estrutura, nós não fazemos. Dou maior prioridade pra isso, eu nunca dei muita prioridade para ser virtuose ou algo assim. Eu me considero artista, do ponto de vista criador, de fazer arte. Tanto faz se é literatura, música, pintura, cinema, em qualquer coisa que eu me envolvesse, eu faria do jeito que está na minha cabeça. Por isso, eu não preciso me envolver num tecnicismo profundo. Estudar depende daquilo que você quer falar. Cada coisa se apresenta em seu tempo e nós vamos ter um jeito de fazer, o que não podemos é deixar de fazer.

 

 
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