Tropa de Shock
Por Vinícius Mariano / Fotos: Divulgação
Após três anos, o Tropa de Shock está de volta trazendo na bagagem o seu novo álbum, “After Twilight”. Trabalhando de forma consciente, a banda não teve pressa em correr com um novo disco lançando algo logo após o CD “Survivors”, de 2004, e procurou gastar o tempo que fosse necessário para fazer deste novo trabalho uma obra de arte. Já dizia o velho ditado que “a pressa é inimiga da perfeição”. Nunca uma frase poderia ter se encaixado tão bem na discografia do grupo como agora, já que “After Twilight” é uma arte rara esculpida nos seus mais minuciosos detalhes. Se não bastasse a virilidade da sua música, o disco ainda conta com um enredo intrigante baseado numa história já não mais tão fictícia (abordada e explicada detalhadamente em uma das perguntas abaixo) – conceito que, inclusive, vai virar um livro – e uma arte gráfica simplesmente brilhante criada pelo próprio vocalista Don.
Diante de tantos atributos, não podíamos perder a oportunidade de saber mais sobre o desenvolvimento de todo o álbum e entramos em contato com o vocalista Don, que prontamente atendeu a nossa revista e nos contou todos os detalhes sobre este novo lançamento do Tropa de Shock. Sobrou até espaço para falar sobre o começo da banda, as bem-sucedidas turnês pelo velho continente e de como surgiu o nome que batiza o grupo.
Por Vinícius Mariano
Don, a diferença entre o penúltimo álbum do Tropa de Shock, “Survivors”, de 2004, para o novo – “After Twilight”, de 2007 – é de três anos. Você poderia resumir e descrever um pouco o que se passou durante esse tempo até vocês chegarem ao lançamento do novo álbum?
Don – O tempo passa rápido, não? Ficamos um tempo procurando por um conceito que fosse bem atual e que tivesse a cara das novas composições. Com a idéia na mão, partimos para a parte mais difícil que era montar o álbum. Cada um trouxe a sua visão do tema que havíamos escolhido e no estúdio fomos polindo os riffs, as melodias, harmonias, dobras, tudo sem pressa, pois o importante era o resultado final. Tínhamos um ótimo aliado: “o tempo”, já que decidimos gravar este álbum no nosso próprio estúdio, sem qualquer tipo de pressão e sem uma data para terminar.
O “After Twilight” é um disco conceitual que fala sobre a história de um futuro que já está acontecendo, a chamada “maquinização humana”. Gostaria que você nos explicasse mais sobre este conceito e de onde veio a inspiração para escrever este contexto bastante interessante.
Don – Há muito tempo nos preocupamos com o destino da raça humana. O homem está se transformando em máquina. O álbum foi conceituado em cima de documentários, notícias científicas, fatos do dia-a-dia e filmes que já vimos sobre o assunto. Juntar todas essas informações foi um passo para criar a temática do álbum, que fala a respeito de uma guerreira que ajuda a raça humana a achar o “Escolhido”, o homem dos genes puros. Só ele devolveria ao homem sua condição humana novamente. Mas a nossa maior fonte de inspiração foi mesmo o escritor Isac Asimov, “o pai da robótica”. Esse cara era um gênio e muito dos robôs que existem hoje em dia tem relação com as criações que ele contava em suas histórias.
Eu soube que a idéia do contexto do “After Twilight” se tornou tão grande que vocês a levaram para o escritor Adriano Villa. Aliás, o Adriano prontamente concordou em fazer um livro contando essa história do álbum. Vocês já começaram a trabalhar nisso? Como está esse processo?
Don – Nós nos encontramos com uma amiga numa balada e comentamos sobre o tema do disco. Conversa vai, conversa vem, e ela falou a respeito de um amigo escritor, o Adriano Villa, então passamos a ficar em contato com ele e descobrimos juntos que seria ótimo escrever sobre o tema. Ele juntou nossas idéias e letras e escreveu toda a saga da “Bad Woman” (N.R.: mascote do Tropa de Shock) em Ákbah, a cidade fictícia onde se passa a história do “After Twilight” e ocorrem batalhas, traições, descobertas, entre outras coisas. Enfim, uma grande história. O livro já está terminado e só aguardamos o “ok” da editora para lançarmos. A idéia é lançá-lo no segundo semestre deste ano.
No “After Twilight” vocês fizeram questão de homenagear o próprio passado dando uma nova roupagem para uma das músicas mais conhecidas do grupo, “The Blade Of The Wind”, que saiu originalmente num EP homônimo de 1998. Por que regravar essa faixa em particular?
Don – O “The Blade Of The Wind” foi um EP com grande repercussão tanto na Europa quanto no Brasil. Nós sempre a tocávamos nos shows da forma original, mas em um dos ensaios resolvemos mudar os arranjos, achamos que tinha ficado bem legal e pensamos que seria interessante regravá-la neste novo formato. Espero que nossos fãs tenham gostado tanto quanto nós dessa nova versão.
“After Twilight” traz duas participações especiais de peso: a do guitarrista do Helloween, Michael Weikath, fazendo um solo na faixa “The Sunrise Is Forever“, e do guitarrista Edu Ardanuy, do Dr. Sin, que aparece solando na faixa “A New Way“. Como surgiu a idéia de convidá-los para participar do disco e como tudo acabou fluindo?
Don – Nós conhecemos o Edu há anos e já fazia tempo que queríamos ter um solo dele numa de nossas músicas. Percebemos que seu talento se encaixaria perfeitamente neste novo trabalho, fizemos o convite e ele topou participar fazendo um solo maravilhoso. Quanto ao Michael, o cara é um grande artista do metal e queríamos muito sua participação. Por meio da nossa amiga Juliana, mandamos a “The Sunrise Is Forever” pra ele e, pra nossa felicidade, o Michael gostou bastante da canção e fez um solo fantástico, deixando a música com um toque especial.
Don, o “After Twilight” também estréia uma nova formação do Tropa. Desta feita, três novos integrantes: os guitarristas PH e Daniel Simon, além da tecladista Valéria Moregola. De fato, você e o Márcio (baterista) sempre tiveram dificuldades para manter a banda com uma formação estável. Por que vocês sempre encontraram tantas dificuldades para conseguir manter a mesma formação?
Don – Eu acho que eu e o Márcio somos muito chatos (risos). As mudanças de formação, de certa forma, são naturais em uma banda com muito tempo de estrada. Durante um período você aprende a lidar com as pessoas, passa a conhecê-las melhor e acaba percebendo se elas serão parte vital do seu trabalho ou não. É bem difícil um grupo abraçar uma idéia na totalidade e gostar das mesmas coisas. Porém, todos os integrantes que passaram pelo Tropa deixaram suas marcas pessoais, o que nos fortaleceu e nos fez chegar aonde estamos hoje.
Antigamente, você mesmo gravava os teclados e os tocava nos shows. Por que, desta vez, você decidiu contar com uma tecladista de ofício durante as gravações e também nos shows ao vivo?
Don – Nos shows as músicas ficavam com muitos buracos nas harmonias. Já era uma idéia antiga contar com um teclado na banda e acabamos conhecendo a Valéria através do Felipe, nosso baixista. A forma dela tocar e de ser se encaixou perfeitamente com a proposta da banda.
Don, a criação e todo o layout de capa do “After Twilight” é de sua autoria. Pouca gente sabe, mas você também é tatuador. Fale mais sobre essa outra arte, de como você se interessou pela tatuagem, enfim, conte um pouco sobre este seu outro lado artístico.
Don – Eu sou formado pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, fui publicitário e sempre mexi com arte. Quando eu me envolvi com a banda, percebi que precisaria de mais tempo para me dedicar à mesma, então saí da agência onde eu trabalhava e comecei a estudar a arte da tatuagem. Desde então, ambas as profissões passaram a andar lado a lado.
No final dos anos 90, o Tropa fez duas pequenas turnês pela Europa e uma pelos EUA. O quanto essa turnê foi importante para a banda e quais são as principais lembranças que você tem daqueles shows?
Don – Passamos pela Grécia, Alemanha, Bélgica, Holanda, Inglaterra, França, Itália, Egito e EUA. O mais importante dessa turnê foi que conseguimos divulgar muito bem o nosso trabalho nesses países, saímos em grandes revistas, fazendo nosso nome ficar mais forte. Agora para falar das lembranças é um pouco complicado, porque daria um livro para descrever tudo o que aconteceu durante essa turnê. Passamos por todos os tipos de situações: coisas boas e bacanas e outras bem estranhas.
Hoje você ainda tem a ambição de voltar a fazer a divulgação do nome do Tropa na Europa e EUA?
Don – Hoje a nossa idéia é fazer mais shows no Brasil mesmo e na América Latina, tocar com outras bandas, divulgar o “After Twilight”, ganhar novos fãs, lançar o livro e o mais importante de tudo: tocar e divertir-se muito.
O Tropa de Shock está em atividade desde o final dos anos 80. Aliás, vocês chegaram a lançar um LP em 1990 chamado “Fragmentos” onde, na época, a banda ainda cantava em português. Como você poderia resumir o que foi aquela gravação e repercussão daquele registro para os fãs mais novos da banda?
Don – O “Fragmentos” foi a nossa primeira gravação. Na época foi fantástico, pois fizemos vários programas de TV, entrevistas para jornais, revistas... o sonho de toda banda jovem. O disco rolou muito bem nos meios de comunicação e era engraçado ouvir a nossa música tocando nas rádios. Os shows, principalmente no interior, sempre tinham muita energia. Já naquela época nós levávamos o nosso cenário para os shows (nesta época a “Bad Woman” era uma boneca de eucatex)... Resumindo, foram anos incríveis.
Por que, na discografia da banda, vocês não o consideram como o primeiro álbum e sim o “Angels Of Eternity”, de 1997?
Don – Porque o “Fragmentos” foi o único disco gravado pela banda em português. Mas é lógico que ele faz parte da nossa história.
Você já teve a idéia de relançar o “Fragmentos” em CD ou mesmo regravá-lo dando uma nova roupagem às músicas?
Don – Nós realmente temos a intenção de relançá-lo em CD. Quanto a regravá-lo... o que posso dizer é que a sua sugestão está anotada (risos). Quem sabe, um dia...
Você ainda tem o costume de ouvi-lo de vez em quando? Aliás, qual é o álbum do Tropa que você mais ouviu de todos os lançados?
Don – Eu não o ouço mais porque não tenho mais toca-discos. Em relação aos discos, particularmente eu ouvi muito “The Other Side”. É um CD que me agrada bastante e tem uma camada bem densa. Mas, obviamente, estou ouvindo muito o “After Twilight” por ele ser o álbum mais pesado que já gravamos e o filho mais novo.
Don, para terminar, gostaria que você me matasse uma curiosidade: de onde surgiu o nome Tropa de Shock?
Don – Eu sempre gostei de chamar todo mundo de tropa. Quando estávamos procurando um nome para a banda pensamos em ter um nome duplo que funcionasse legal, juntando a idéia de amplificadores, cabos, impacto e chegamos no “Tropa de Shock”. Obrigado pelo espaço cedido e continuem nos apoiando. Valeu!
Sites:
www.tropadeshock.com.br / www.myspace.com/tropadeshock
Discografia:
Fragmentos (somente em LP/1990)
Angels Of Eternity (1997)
The Blade Of The Wind (1998)
Looking For The Truth (EP/2000)
The Other Side (2001)
Survivors (2004)
After Twilight (2007)
Formação:
Don (v)
Daniel Simon (g)
P.H. (g)
Felipe Negri (b)
Márcio Minetto (d)
Valéria Moregola (k)
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