Fabio Cadore
Por Mariana Sayad / Fotos: Eliane Araújo
Fabio Cadore é um dos destaques da nova geração da música brasileira. Compositor, violonista e cantor, ele lança seu primeiro trabalho autoral, “Lúdico Navegante”. Nesta entrevista, ele nos conta todo o processo de gravação do CD e sua história com a música popular brasileira.
Mariana Sayad
Você poderia falar mais sobre a sua formação musical?
Fabio Cadore – Eu comecei autodidata com 6 para 7 anos, ganhei um violão do meu pai, mas na época eu não tinha noção de música e ninguém na família trabalhava com isso. O violão ficou encostado, mas o meu irmão começou a fazer aulas, depois montou uma banda de garagem e foi a partir dali que comecei a me interessar.
Eu tocava com as cordas invertidas, era meio estranho, só depois consegui que o violão ficasse só pra mim. Isso foi até os meus 13 anos. Durante este período, comecei a me interessar pelo samba. Depois de assistir a um show do João Gilberto na Bandeirantes, fiquei fascinado pela bossa nova. Tive ainda muita influência do Toquinho, principalmente, no violão.
Então, aos 13 anos, fiquei sabendo da ULM (Universidade Livre de Música Tom Jobim), onde me inscrevi em violão popular. Eu não tinha muitas outras noções, mas como terminaram as inscrições, eu acabei entrando para o violão erudito. Eu entrei de cabeça no mundo clássico. Foi interessante porque passei quatro anos na música erudita, eu meio que rompi com a popular, foi a época que eu fazia recital com orquestras. Foi uma base bem legal para mim. Depois disso, quando eu estava quase no fim do curso, voltei para a música popular. Nesta época, eu estava na fase de vestibular e comecei a me interessar pelo canto popular. Assim, entrei na faculdade em canto, pois já tinha feito um curso de violão, por isso, não quis fazer bacharelado. Mas durante a faculdade fiz oficinas de composição e continuei com as aulas de violão.
Você poderia passar mais detalhes sobre as suas influências musicais?
Fabio Cadore – Eu tive influência em determinados períodos bem diferentes, como o rock, o samba, bossa nova e a música clássica. Principalmente hoje, a minha maior influência é o jazz, mas não o tradicional e sim o mais contemporâneo, como a mistura de influências que mantém a base jazzística, como vêm fazendo alguns músicos, tanto americanos quanto alguns franceses.
Eu penso em três pólos: nos ritmos brasileiros, que eu acho legal, a música americana com este lado mais para o soul e o funk, que é misturado com o samba e o jazz. Mas isso muda.
Quando você começou a cantar?
Fabio Cadore – Eu já cantava desde pequeno. Quando entrei no erudito, rompi com isso. Quando eu retomei, é estranho, mas não foi com música brasileira. Foi uma época, no final da adolescência, com a música pop americana. Eu achei interessante a voz e comecei a brincar e, logo depois, voltei a estudar o que eu gostava como bossa nova e samba. É interessante porque estas tendências eu retomei quando entrei na faculdade. Foi quando foquei na música brasileira. O soul americano não é uma influência direta hoje, mas foi o que me deu vontade de cantar.
O violão ajudou neste processo?
Fabio Cadore – Com certeza. Principalmente, a cama que o violão proporciona. Esta parte harmônica dá mais segurança. O instrumento tem a base de tudo que está acontecendo ali. Num arranjo, tudo que acontece também acontece no violão, então dá muito mais segurança quando eu vou cantar, independente se tiver improviso ou não. Para mim, sempre foi muito automático: uma coisa está ligada à outra, então não sei dizer se é mais complicado para uma pessoa que só canta. Para mim, sempre funcionou como um casamento.
Quando você começou a compor?
Fabio Cadore – Foi relativamente tarde. A primeira música que fiz era instrumental, mas já tinha uma melodia que indicava uma letra. Isso foi um pouco antes de eu entrar na faculdade, em 2002. Eu fiz e guardei, então teve um festival em Ourinhos e havia uma oficina com o Toninho Horta. Esta música foi a única que mostrei a ele, que até deu um toque num último acorde.
Depois dela eu fiquei meio parado. No fim de uma oficina do Eduardo Gudin, eu ainda não havia tido a coragem de colocar letra nela. Sempre gostei de escrever, mas nunca tinha pensado em letras. A primeira música que fiz letra é a que dá título ao CD “Lúdico Navegante”. A base tem de ser no instrumental. Após resolver isso, eu já sei sobre o que quero falar aí sim eu começo a compor com mais tranqüilidade. Acho que composição é sempre uma evolução. Eu gosto de falar sempre que a composição vai de cada período que você está. Para mim, as composições do CD são de uma primeira fase, que considero muito, e agora vou entrar numa outra. É sempre mutável.
Ainda sobre composição, você trabalha mais com inspiração ou tem alguma rotina diária de se dedicar à composição?
Fabio Cadore – Eu não tenho um método de compor e já tive alguns casos de inspiração. Tem até uma música que dei o nome de “Súbita Canção” por isso, mas não é uma coisa do meu dia-a-dia. Pra mim, tem sido fácil criar as coisas. Quando eu sinto vontade de criar alguma coisa, eu faço. Se eu não estiver com vontade, não vou fazer. Eu não sei até quando as coisas serão assim.
Na verdade, compor é bastante penoso. A idéia até sai de momento, mas é necessário batalhar em cima dela. Quando eu estou a fim de compor e rola um começo, por mais que depois eu vá arrastando, eu já estou com vontade. Por mais que depois eu demore horas pra terminar ou faça metade num dia e depois termine, sai com mais vontade. Já a letra demora um pouco mais.
Como surgiu a idéia do CD?
Fabio Cadore – Há uns dois anos, comecei a compor umas idéias minhas pra banda tocar, nada muito freqüente. Um dia eu e o Ivan Andrade recebemos um convite da faculdade, que tínhamos acabado de terminar, para fazer um show no Auditório do Sesc Vila Mariana. Aliás, o Ivan me ajudou em toda a parte dos arranjos.
Nós achamos legal fazermos um show mais autoral, com as minhas músicas. Esta foi a primeira vez que aconteceu isso. Eu conheci o Bruno Migotto, o Rafael já tinha tocado algumas vezes. A partir daí, decidimos gravar uma demo com três músicas minhas e duas releituras para dar uma circulada. Na época, fizemos o Ton Ton Jazz Bar. Depois, surgiu um convite legal em que a Camila Machado, filha do Filó (Machado), produziu um show meu no Villaggio Café em setembro de 2006 e chamou o Filó para fazer uma participação. Eu fiquei superfeliz porque sou fã dele há muito tempo. Foi bem legal, pois ele foi ao ensaio, deu uns toques ótimos e depois fez mais algumas participações no mesmo ano.
Até o meio de 2007, fizemos várias apresentações no bar Ao Vivo (São Paulo). Sempre como um grupo fechado: eu (violão e voz), Bruno Migotto (baixo), Rafael Raes (bateria) e Ivan Andrade (sopro). A concepção do trabalho começou a partir destes shows. Eu não estava muito preocupado em gravar um CD nesta época, mas as coisas aconteceram a partir dali. Participei de um festival no final de 2006 no interior do Rio, onde uma música minha chamada “Ato Falho” foi classificada. Fomos eu e o Ivan, usamos a banda de lá. Nós já tínhamos uma idéia de gravar um CD, mas nada era muito claro ainda. Quando estávamos voltando de viagem comentamos fazer algo sério mesmo. Além de todo este tempo tocando o repertório do disco, ficamos quatro meses só na pré-produção, fazendo os arranjos e testando. Isso foi ótimo porque deu uma base muito legal para o CD.
Eu comecei a gravar em maio de 2007. Desde que eu comecei a compor mais a sério, desde a música “Lúdico Navegante”, sinto que, inconscientemente, já estava fechando um CD. Tanto é que não caberia mais música nem eu tiraria nenhuma. Está bem fechado mesmo.
Quais foram as principais dificuldades enfrentadas na produção e gravação do CD?
Fabio Cadore – Têm vários problemas, um deles eu estou descobrindo agora: a pós-gravação. Mas vamos começar do princípio. Uma coisa superimportante é a pré-produção. Se não fizer legal, você vai “girar lâmpada”, ou seja, perder horas no estúdio “bolando” as idéias. Não dá certo. Outra coisa importante é planejar as gravações, estipular prazos, mesmo arredondando. Ter isso como base vai ajudar muito. Pra mim, a dificuldade foi um pouco conseqüência da inexperiência. Por exemplo, eu não tenho experiência com cordas, o que foi meio complicado porque eu não tinha muito contato. Mas, no final, deu tudo certo. Eu tive algumas facilidades como com o Bruno Migotto, que já tinha uma experiência com metais e ajudou com os arranjos.
A pós-gravação é começar do zero. É muito fácil gravar um CD e deixar parado na gaveta. Se você tem muita grana, dá para investir e fazer uma coisa bem legal, senão, é necessário correr atrás. O que eu faço é adquirir contatos, garimpando mesmo. Eu sempre garimpei muito contato, mas antes não corria atrás de público e isso era um problema. Hoje, mudei em relação a isso e passei a divulgar mais para chegar a um número maior de ouvintes.
Site:
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