Rapazes do Trio
Por: Mariana Sayad / Fotos: Carlos Mancini

Rapazes do Trio é um dos melhores exemplos de como um grupo de música instrumental pode ser bom e conciso ao mesmo tempo, com uma formação compacta formada pela bateria de Fernando Baggio, guitarra de Walter Nery e pelo baixo acústico de Guto Brambilla. Nesta entrevista apenas os dois primeiros estavam presentes.

Eles acabaram de lançar o primeiro CD com nove faixas autorais. Sendo este um estágio muito importante para o grupo que está cada vez mais de firmando no cenário da música instrumental contemporânea. Confiram!

Mariana Sayad

MS - Como foi a formação do grupo?
WN – A formação aconteceu no momento, que considero, de ter retornado à atividade musical, de tocar mesmo. Eu estava a um bom tempo só dando aula e, praticamente, estático no lance de composição e sem muita perspectiva de avançar em relação a isso. Eu queria que fosse um trio com o intuito de enxugar a formação e de certa forma também não deixar som vazio. Eu estava na escola, mas não conhecia as pessoas mais novas, como o Fernando e o Guto, mas resolvi falar com eles e toparam. Isso foi no começo de 2004.

FB – Inicialmente, nós nos reuníamos para tocar repertório mais standard de MPB e jazz para nos conhecer tocando. Isso é importante para quem se propõe a formar e manter um grupo. Tocar junto é conviver, discutir ações, relações e uma série de coisas. Praticamente, no primeiro ano, nós só ensaiamos tocando este tipo de repertório para pesquisar a sonoridade do trio. Só depois é que o Walter começou a trazer as músicas dele e a partir disso começamos a pensar para onde este projeto iria. Depois desta adaptação é que começamos a trabalhar as músicas já com uma sonoridade mais madura, que culminou na gravação do primeiro CD.

MS - Qual é a formação musical de vocês?
FB – Eu comecei cedo tocando bateria. Eu sou do interior de São Paulo, de Aguaí. Eu tinha aula numa cidade vizinha com oito anos e fiquei tocando lá por muito tempo em banda de baile e rock. Com 18 anos eu vim para São Paulo, onde eu estudei com o Cuca Teixeira no Souza Lima, com o Bob Wyatt e Nenê. A minha formação de bateria foi com estes professores com quem estudei bastante tempo. Eu fiz curso de arranjo e harmonia. Eu não tenho nenhuma formação de faculdade. Estudei com estas pessoas que naquele momento achava relevante, que eu admirava e pesquisei.

WN – Eu iniciei tocando violão sozinho aos seis anos. Os meus irmãos tocavam naquelas bandas de baile, então, ficavam vários instrumentos na minha casa, onde eu podia ouvir e conviver com o som. Eu comecei a ter uma educação formal com uma professora de bairro que me ensinou a ler música. Mais pra frente, eu me mudei de São Paulo para Curitiba para fazer faculdade (física), onde tive contato com professores legais, sendo alguns que vinham de São Paulo para passar um tempo lá.

Depois fui para Minas Gerais participar de um seminário, onde tive a oportunidade de conhecer o Nelson Faria, Toninho Horta e Ian Guest. Quando voltei a São Paulo, ingressei no Souza Lima. Eu fui ter aulas com outras pessoas, como Henrique Pinto e Mozart Mello. Atualmente, eu estou terminando a minha pós-graduação em música.

MS – Quais são suas principais influências?
FB – A influência neste trabalho, por ser composição, vem subjetivamente porque eu não tenho nenhuma composição minha no trio, mas quando eles trazem alguma música, na hora de fazer um arranjo, eu procuro limpar a cabeça para ouvir o que está sendo proposto. Eu acho que isso remete às influências que trago comigo do jazz e da música brasileira. Eu posso citar John Coltraine, Wayne Shorter e Milton Nascimento. São pessoas que influenciam diretamente não só na maneira que tocam, mas como conduziram suas carreira. No caso do Milton e do Wayne, ainda vêm trazendo e propondo coisas novas. Eu acho que essa conduta me inspira até mais de que como eles tocam ou fizeram.

De baterista, eu tenho uma grande admiração por Max Roach, Tony Williams e Elvin Jones. Mas hoje eu ouço e me inspira muito o Brian Blade, que toca com o Wayne Shorter e tem um trabalho solo também, que é maravilhoso. Ele é muito pluralista no jeito de tocar e em suas influências. O resultado que ele traz para o som e de onde buscou isso tem influência na música folk, no rock e no jazz. Eu acho isso muito legal, aprendi muito com isso e trouxe muito para mim.

WN – A minha influência é bastante ampla de estilos porque eu comecei ouvindo rock, principalmente, Beatles. Depois, eu fui mudando, entrei na linha do hard rock. Eu ouvi muito Deep Purpple e Black Sabbath. Eu era muito influenciado por este tipo de música e ainda gosto bastante. Num determinado período, eu passei a ouvir muito rock progressivo, então, comecei a ouvir muito Yes. Eu achava que isso era alguma evolução para mim e realmente foi. Daí foi um pulo para ouvir outras coisas. O primeiro salto que dei do rock para o jazz foi o Weather Report. Isso abriu caminho para outras coisas também.

Hoje, eu tenho ouvido alguns guitarristas importantes, como Joe Pass, George Benson. Como todo mundo passa por eles. Da atualidade que tem me chamado muito a atenção, que inclusive o foco do meu trabalho de pós, é o Kurt Rosenwinkel. Ele mudou a minha forma de pensar.

MS – Vocês lecionam há quanto tempo?
FB – Eu sou professor no Souza Lima há seis anos. No geral, tem uns nove anos.

WN – Uns vinte e poucos anos.

WS – Como lecionar ajuda no desenvolvimento de instrumentista?
FB – Ajuda muito. Desde quando comecei a dar aula, eu entendi que uma das coisas que os alunos mais anseiam é entender como um professor toca. Isso também me fez perguntar como eu toco. Como eu encaro e represento a música nas mais diversas formas. Eu acho que esta compreensão sobre mim mesmo para poder passar aos alunos, até didaticamente, ajudou muito na minha forma de tocar e de me comportar no som ou nos trabalhos.

Professor é acima de tudo um mostrador de caminhos, então, eu também tive que me estudar para entender qual foi o meu caminho. Qual foi a minha trajetória musical e pessoal para poder passar aos alunos e até hoje. Isso ajuda muito, além de todo o contato com o material didático e com as informações que acabam chegando até os professores. Estas conversas de corredores que são muito valiosas, que acabam refletindo no meu jeito de tocar porque aumenta o leque de conhecimento e informação.

WN – Lecionar e tocar aparentemente não andam juntas. Tem muitos músicos excelentes que não sabem dar aula, que não têm nenhuma sensibilidade com os alunos. Eu já vi casos contrários. O cara ser um ótimo professor, mas com relação à parte prática, não tem muita intimidade.

No atual estágio, principalmente, depois que voltei a estudar, abriu uma questão relacionada ao processo. A música acaba sendo um processo relacionado com a improvisação, pois você vai contar uma história ali. Como isso se forma e é criado tem muito a ver com a forma de ensinar ao aluno. Você precisa conduzir uma aula de maneira que ele entenda o processo também. Isso ajuda a se desenvolver como um músico na minha forma de pensar, mas eu sei que tem muitos músicos que não tem nada a ver com isso.

FB – Eu acho que a questão do ensino no Brasil, do jeito que está se estabelecendo, é muito recente. Eu mesmo pude ver a mudança de como eu fui ensinado e como tive que procurar uma maneira didática e como é feito hoje. Principalmente, o ensino de vanguarda, que eu acho que é uma referência para o Brasil inteiro e concordo com o Walter, pois conheço muitos colegas que são grandes músicos, que não só não são bons professores, como não pretendem ser. Não gostam de dar aula e em alguns raros casos que são até contrários ao ensino da música mais formal, que eu acho um grande erro. Como tem o contrário mesmo, o professor que não se revela um músico prático, compositor ou um instrumentista com a mesma capacidade que ele tem como professor. Eu sempre tive a preocupação de ter a fusão destas duas coisas porque eu comecei com um lado mais prático e só fui ter o aprendizado formal bem mais velho e isso mudou a minha vida e abriu a minha cabeça para muitas coisas. Para todo o universo de música que eu não tinha.

MS - Como foi a concepção do CD?
FB – O Walter trouxe composições antigas que havia feito para outra formação. Isso foi um grande desafio porque ele tinha uma sonoridade na cabeça ainda registrada de outros trabalhos e quando colocamos em trio, chocou um pouco. A primeira música que fizemos foi “Fruta Verde”, que era um baião.

WN – Aparentemente, um disco parece uma colcha de retalhos, mas não é. As idéias passadas nunca foram apresentadas. Eu achava que eram boas e modernas, por isso, as trouxe à tona. Eu queria testar.

FB – Algumas composições o Walter queria tirar, mas eu e o Guto “brigamos” para manter porque eram boas. A primeira música foi a mais difícil, pois foi um processo mais longo, inclusive, ela acabava com todos os ensaios, porque nós ficávamos meio desanimados. Esta música demorou muito tempo para tomar uma forma. Ela demorou tanto que sempre tocamos de um jeito, mas quando fomos gravar, fizemos de outro (risos). Nós lutamos muito com ela, mas foi a que revelou a sonoridade do grupo. Acho que foi uma música crucial.

WN – Eu já tocava a música, mas era uma outra instrumentação com dois violões e um baixo, então, eu me preocupava só com a melodia. Agora, eu estava sozinho na parte harmônica, então, precisava fazer as duas coisas juntas. Na minha evolução como guitarrista, a formação do trio foi importante porque tinha que recriar a música na minha cabeça para que ela tivesse as duas coisas juntas. Eu tive que desenvolver uma série de técnicas na guitarra e no violão, pois, eu toco muito com o dedo. A partir deste momento, eu comecei a fazer soar legal.

FB – Todo mundo se doou um pouco neste processo. Não só nesta música, mas em todas que foram aparecendo de uma maneira a entender onde estavam os espaços e preenchimento de idéias porque o desafio do trio é esse. O trio está numa linha muito tênue de se tocar o que não precisa e deixar faltar. Fazer um trio soar e respeitar a função de cada um, em uma espécie de hierarquia da composição.

Quando nascia uma música dos três, ela surgia um pouco exagerada, pois tocávamos com muita coisa desnecessária. O processo depois foi o de enxugar muita coisa. Sobraram os espaços vazios e nós fomos trabalhando para que este grupo soasse como um trio. Cada um dentro da sua função, mas sempre com um algo a mais que não está tão ligado ao universo daquele instrumento para preencher. Este foi o processo de todas as músicas, chamamos de primeira leitura, onde tocamos bem relaxados, de novo, vamos compreendendo e evoluindo.

Todos nós tivemos que evoluir muito, pois existe um engajamento dos três neste trabalho. Eu tive que aprender mais expressão na bateria e, por vezes, eu tive que criar frases melódicas, costurar melhor algumas situações. Assim, começamos a entender que a sonoridade do trio, na verdade, também pode respeitar. São poucos instrumentos e vamos deixar soar como se deve. Essa foi a trajetória das composições até montarmos o disco.

Todos nós mudamos muito nossa maneira de tocar. Nós tocávamos standard normal. Hoje, nós não tocamos mais assim. Existe uma respiração diferente até para tocar standard. Mudou. Nós realmente formamos um grupo. Depois de quatro anos, posso dizer que formamos um grupo.

WN – A idéia era essa mesmo desde a formação. Quando você tem um trabalho solo, é mais complicado, pois os músicos são contratados. É diferente de quando se vai formar um grupo e gravar um CD. A coesão do trabalho é totalmente diferente, assim como a interação.

MS - Qual é a opinião de vocês sobre o cenário da música instrumental atualmente?
FB – Eu posso dizer, talvez até ingenuamente, eu sou um otimista desse mercado. Eu acho que pode crescer, é mal explorado e mal dirigido por alguns. Eu creio que muitos músicos desistem muito fácil. É difícil ter um grupo que se estabeleça no mercado e passe confiança, por exemplo, o Pau Brasil é um grupo renomado porque vem de muitos anos. Eles têm uma história e estão tocando em lugares bons. Eles têm estrutura que conquistaram em todos estes anos. O que eu vejo são grupos que gravam um disco, e não acontece, e já começam a reclamar do Brasil e do mercado. Não é que tudo seja muito bom, mas eles erram também neste ponto.

Outro exemplo é o Sinequanon, que está no quarto CD. Hoje, eles já tocam em lugares que as pessoas vão para vê-los. Tocam em festivais, expõem sua música e passam confiança para um eventual contratante. De repente eu me vejo como um otimista, mas também como uma pessoa que pensa em gerir um negócio de forma mais consciente. Não é só a música pela música, é um negócio.

WM – Para concluir e endossar o que o Fernando disse. Eu acredito no meu trabalho. Eu prefiro acreditar nisso do que no mercado. Eu acho que é por aí. Uma coisa leva a outra.

FB – É. Primeiro devemos acreditar em nós mesmos. É importante que as pessoas sintam que o trabalho é verdadeiro.

 
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