Revista Souza Lima

Michel Leme – A música é o caminho da verdade


Por: Paula Witchert. Fotos: Flávio Tsutsumi e Giselly Gonçalves


Michel_Leme_-_Foto_de_Flvio_Tsutsumi_2011-_menor“O inesperado faz toda a diferença”. E faz mesmo. Em seu quinto álbum, intitulado simplesmente , o guitarrista e compositor Michel Leme mostra que música é arte e que esta é a expressão dos sentidos.

 


Em seus 20 anos de carreira, ele preza pela liberdade de composição e por trazer uma música honesta para si e seu público de forma espontânea e única. E o faz com sucesso no circuito independente.

Nesta primeira parte da entrevista, Michel conta os detalhes da gravação de seu último disco e sua relação com a música.

 

Paula Witchert

 

Como o próprio nome diz, o CD é o seu quinto álbum de estúdio. Há quanto tempo você veio trabalhando nesse disco e quanto durou todo esse processo que envolve as seis faixas presentes no álbum?

Michel Leme: Depois de gravar o “Michel Leme e a Firma” (outubro de 2007) eu passei a tocar algumas músicas novas com os caras da “Firma” e também com outras formações; com o Bruno Migotto principalmente, com o Bruno Tessele e o Waguinho (Vasconcelos) - que fui tocar um pouco depois. As composições saíram aos poucos e outras já estavam prontas. Eu tinha uma ideia para O Samba dos Excluídos, por exemplo, mas fui trabalhá-la depois. Quando eu acabei de gravar a “Firma” eu comecei o processo deste novo álbum, logo em seguida. Eu costumo fazer assim e agora já começam a vir outras músicas na minha cabeça. O teria várias outras faixas, mas optei por essas, pois achei que ficou melhor com essa formação.

 

O que você pensa na hora de gravar um CD?

Michel: Às vezes eu estou estudando alguma coisa e surge uma melodia ou algo que dê para fazer um tema. Em outras eu sinto simplesmente uma vontade. Tem algo que você nem sabe direito o que é, mas precisa fazer uma música e eu fico atento a tudo o que acontece na hora que eu vou tocar. Inclusive os erros. Tudo isso pode fazer uma música nova acontecer. Às vezes você pode estar com a cabeça num tema extra-musical. Quando eu fiz Ananda Moy Ma (faixa que fecha a parte de áudio do disco), eu estava na Companhia da Música tocando com o Deco (baixo) e o Digão (bateria) - logo no começo das transmissões do meu programa que não existe mais porque acabou também a Companhia da Música - e me veio essa vontade de fazer uma música para a Ananda Moy Ma, uma santa da Índia que o Paramahansa Yogananda cita na autobiografia. Ela nem comia direito, os discípulos precisavam alimentá-la porque ela vivia sempre em êxtase. Eu curti muito essa parte e a música nasceu na hora, no momento da transmissão do programa, e o Deco foi ‘pegando’ os baixos na hora. Foi muito louco porque ela já saiu pronta. Tem DVD disso. A parte B do tema não tem uma melodia fixa, cada hora eu faço de um jeito, como no Blues de Ocasião, que é a faixa em vídeo. Não tem um tema, entende? Cada dia é um tema, mas a forma é um blues. Eu acho legal isso também, você tem uma estrutura e a melodia depende do dia, por isso chama Blues de Ocasião. E Ananda Moy Ma foi um destes exemplos do ímpeto, que se tem inspirado em alguma coisa. Na versão do disco ela ficou com 14 minutos, porque algumas partes, principalmente a introdução e o final que entraram na hora, nunca mais a gente vai tocar deste jeito.

 

Pelo o que eu percebi ouvindo os seus trabalhos anteriores, você pensa em uma Michel_Leme_menor_flaviotsutsumimúsica, imagina que ela ficaria legal gravada por tal e tal músico e quando você finalmente grava esse material, sai uma composição praticamente nova pela forma que eles têm de tocar. Como é essa relação?

Michel: Isso só acontece se você estiver ligado naquele momento. Se estiver pensando no passado, querendo tocar as convenções da música ou tocar o que você imaginou em casa, não vai dar certo. Eu aprendi isso tocando. Eu acredito nas coisas que acontecem na hora. Pode ser que elas se repitam porque são elementos que vão fazer parte da estrutura da música ou às vezes não, e talvez você nunca mais toque aquilo. Eu não gosto de ficar percorrendo caminhos que deram certo. O que existem são códigos. Quando eu entro no tema da parte A, os caras sabem do que eu estou falando. E na hora que estamos no vazio fica todo mundo ligado um no outro de uma forma muito mais intensa do que se fosse ensaiada, óbvio. Não é pelo simples prazer de correr riscos. Você sempre está correndo riscos quando está tocando. Mesmo que se eu estivesse tocando uma peça ensaiada eu estaria correndo risco. De repente dá vontade de tossir e você erra (risos). O espírito dessa música exige que as pessoas estejam atentas ao que está rolando na hora e nada faz a pessoa ficar mais atenta do que acontecer coisas não combinadas. Cada vez mais eu curto fazer e registrar esse tipo de coisa porque é o que eu considero mais honesto nessa música. Você faz um tema legal, ele é um guia, a moldura dentro da qual vamos improvisar e criar. Mas ele não é a palavra final do negócio. O que você pode fazer em torno do tema, como introduções ou uma ponte no meio ou no final, são infinitas combinações. Para você estar presente, isso é o grande catalisador. Você faz uma coisa na hora e os caras e nem você estão esperando, mas ‘pergunta’ para ver o que vai acontecer, e aquilo se repete, vai para outro lugar e volta para uma parte da música que você conhece. O inesperado faz toda a diferença. Quando você vai ver alguém tocar e está tudo ensaiado é bonitinho e tal, na segunda vez você se pergunta: 'Esses caras estão querendo me enganar!'. Eu sinto isso também quando vou ver as pessoas tocando e eu não sou a fim de ver isso. Você está ali para negociar com tudo, com os caras e com a música. Eu sempre acabo tocando coisas que não estavam programadas e penso: 'Ok, então vamos por esse caminho'. Por mais que a minha cabeça insista para que eu vá para outros caminhos, a música insiste para seguir por outros, e eu prefiro respeitar o caminho da música porque ela é o caminho da verdade. A minha cabeça está cheia de vícios, então eu prefiro tocar a música do momento a qualquer outra coisa pré-arranjada.

 

Normalmente, quando termina um disco você já começa a pensar no próximo. Como você compõe muito mais músicas do que grava, qual é o critério que para escolher as faixas que vão entrar no disco?

Michel: Um deles é combinar com as pessoas que eu estou tocando e o segundo é eu acreditar na música como um meio daquilo que estávamos falando, de criar coisas em cima. Eu tenho várias músicas que são “fechadas” e eu estou com preguiça de tocá-las (risos). Eu toco com caras que não têm aquela cabeça viciada de alguns músicos antigos que dizem que: "essa música se toca nesse tom", "tem que fazer nesse andamento", "esse é o final certo para ela", "começa no chimbal..." Isso é tudo muito odioso! São burocratas da música. Isso soa para mim exatamente como ter uma banda cover. Eu não quero ser cover da minha própria música e muito menos de outros caras. Eu toco com gente que me permite criar coisas na hora, às vezes até compomos algo a mais na música naquele momento. Eu trabalho dessa forma: primeiro toco bastante uma música. Quando eu achar que ela está gostosa de executar, eu escrevo sem a guitarra, só para treinar. Depois que eu acredito muito nela, eu começo a apresentar para as pessoas. Eu não apresento nenhuma música para alguém sem que ela esteja decorada e que eu não confie completamente nela.

 

E depois de tudo isso, você muda completamente na hora de tocar (risos).

Michel: Algumas coisas são códigos. Quando você 'chama' uma parte os caras já sabem do que você está falando. São códigos entre nós. Isso que tira o aspecto caótico que alguém possa imaginar lendo o que estamos falando. Mas o momento é o grande lance da nossa música. Muitos falam isso, mas eles tocam todas as convenções que ensaiaram. Dizem muitas besteiras na música. Às vezes, eu acho que os músicos são muito hipócritas. Dizem uma coisa e agem de outra forma. Eu direciono a minha vida para aplicar realmente as coisas que eu aprendi tocando e falando. É tudo uma continuidade. Não adiantaria eu ter um discurso bonito aqui com você e na hora que fosse tocar eu fizesse um som pré-combinado. E tem muito isso na música porque os caras estão preocupados em vender um produto. Se ele vai tocar num SESC ou em outro lugar que ele sinta uma responsabilidade maior, ele vai apresentar as músicas de uma forma mais enxuta, diminui os solos e não diz nada. Eu não. Nesses lugares, quando me pedem o repertório eu digo: 'Beleza, são só quatro músicas em uma hora e meia'. Por quê? Porque assim nós temos tempo de falar o que sentimos sobre aquele assunto que estamos tocando. E tem dado certo.

 

Michel_Leme_-_Foto_de_Giselly_Gonalves_6E como você escolhe os músicos, já que toda a vez que grava um disco você muda o grupo? Por que, afinal, você muda sempre?

Michel: Existe uma continuidade. Eu comecei tocando com um grupo e esse grupo se multiplica porque esse pessoal que tocava comigo em 1996 e 1997 tocam hoje com músicos que eles foram agregando com o tempo e eu também. A cada trabalho, como são épocas diferentes, junta pessoas diferentes. Não é pensado, é natural. Acabei de gravar com A Firma e até hoje fazemos shows tocando aquele repertório e é insuportavelmente divertido tocar com os caras porque nós não aguentamos tocar as músicas do jeito que gravamos e isso estabelece aquele 'fogo' para o som e um ambiente de provocação e alerta que faz com que você saia de casa com a proposta de fazer música e realmente você fez música. Na maioria das vezes eu não gosto das minhas partes, mas a sensação do momento é que a música está lá e isso não tem grana que pague. Mesmo tocando esse repertório com A Firma eu comecei naturalmente a tocar com outros caras como o Bruno Migoto (com quem já toco há um tempo), o Abner Paul, o

Waguinho Vasconcelos, Jônatas Sansão, Lucas Macedo, e vários outros. Você não programa o quanto vai ficar amigo de alguém, isso simplesmente acontece. E conforme as coisas dão certo nas datas que eu tenho, eu chamo certos caras e acabo por tocar mais com uns do que com outros. Foi o que aconteceu nesse disco. Eu estava tocando mais com o Bruno Migotto e com um dos dois bateristas. O Bruno Tessele até ficou um pouco fora porque estava doente, mas depois voltou e já conhecia as músicas. Tem até uma coisa curiosa: eu tinha gravado uma seção que até está no disco, o Blues de Ocasião e a 3 Notas, entre eu, o Waguinho e o Migotto. Eu fui gravar no auditório do EM&T e pensei na hora em chamar mais um ‘batera’, e liguei para o Bruno Tessele. Ele e o Waguinho não se conheciam, só as músicas. Eu os apresentei, falei que eles iriam gravar tal música e o resultado é o que você ouve no CD. Então esse processo de mudar as pessoas é natural.

 

O seu novo CD traz de maneira mais forte a virtuosidade, que é uma característica sua, que é mais presente nos seus primeiros discos, diferente do anterior Michel Leme e a Firma, em que esta questão aparentava ser mais secundária. Este suposto retorno foi proposital?

Michel: Não é proposital porque a combinação de pessoas da A Firma pede um outro som. Eu acho que é uma benção você poder tocar de várias maneiras. Não é um processo racional. Simplesmente você sente o momento e pela intuição toca o que é mais verdadeiro. Por ser um álbum de trio, apesar de ter dois bateristas, em relação à instrumentação você ouve percussão, baixo e guitarra e acaba soando com um trio e este tipo de formação tende a ser um pouco mais ‘nervoso’ porque não divide as atenções com o sopro. Eu adoro acompanhar o sopro e fazer a ponte entre ele e o baixo, tocar coisas estranhas entre os dois e fazer com que funcione. No trio é um negócio quase heróico e está na sua mão – porque você tem o instrumento harmônico e está tocando a melodia principal, a maioria das decisões do lance. Esse disco é um pouco mais ácido do que A Firma e talvez reflita uma faceta diferente minha. Às vezes eu sou um pouco ácido e isso também se reflete no modo de tocar. É legal que naturalmente cada trabalho possa ter a sua própria característica. Você ouve o disco inteiro e ele tem uma lógica. Eu fico penalizado quando ouço discos de outros caras que dizem que gravaram no mesmo disco, um country, uma peça clássica, um death metal, um blues e um canto gregoriano. Parece uma coletânea, mas ele foi gravado pelo mesmo cara. Onde está a identidade? (risos). Tanto é que eu não chamo músicos mais famosos do que eu para tocar nos meus discos só para dizer que eu tenho um 'aval' de fulano ou sicrano. Isso é uma grande pobreza de espírito e é querer transformar em produto. Eu posso até chamar um cara mais velho ou mais conhecido do que eu para tocar nos meus discos no futuro, mas ele vai fazer parte do grupo e tocar em todas as faixas. Eu gravo grupos. E esse é o grupo do . Só não tem o quinto elemento. Este é o cara que vai ouvir o disco (risos).

 

Como surgiu a idéia de incluir o vídeo no CD?

Michel: O Flávio Tsutsumi já trabalha comigo há um tempo, desde a época que eu gravava o programa Michel Leme e Convidados na Cia da Música. Já fizemos vídeos para alguns sites como o da Guitar Player TV, NoCabo.com. Na gravação da Faculdade Cantareira o Ricardo Marui estava responsável pela gravação. Então o "Tsunami" - como a gente chama o Flávio - foi comigo e disse que iria filmar, porque ele não estava na ‘responsa’ de gravar. Ele filmou alguns takes e ficaram boas as faixas 3 Notas e Blues de Ocasião - que nem iria entrar no disco porque eu achei que não tinha nada a ver e um disco de 50 minutos para mim estava ótimo. Mas ele disse que tinha essa música inteira em vídeo. Eu assisti e pensei: 'Pô, legal!'. Ela é um bônus track em vídeo, então de certa forma está destacada do contexto do disco.

 

O vídeo da Blues de Ocasião também entrou no contexto de não usar overdubs?Michel_Leme_-_Foto_de_Giselly_Gonalves_2grande

Michel: Houve uma edição no vídeo, porque ele estava com uma câmera só e houve momento que ele precisou se reposicionar e por isso fez alguns enxertos de imagens. Mas o áudio é o que acontece lá na hora, sem edições. Eu não arrumo os meus solos. Acabei de gravar um disco do Arismar do Espírito Santo (eu, o Arismar e o Thiago do Espírito Santo). Eu não gostei de alguns solos meus. Não gostei no dia, mas sei lá, o que eu fiz é uma foto daquele dia em especial. Às vezes você tira uma foto e depois olha e fala: 'Nossa, nessa foto eu fiquei feio pra caralho' (risos). Mas eu fiz questão de não refazer nenhum solo porque foi o espírito do momento.

 

Mas como fica isso já que é um momento que você não gostou?

Michel: Pelo take dos outros caras. Se o take dos caras está bom eu sacrifico o meu. Isso tudo faz parte de um processo. Certamente de alguns trechos eu gosto. Por ser justamente um CD, eu prezo para que o que esteja ali seja o mais honesto, e na maioria das vezes isso acontece no primeiro take. Eu vou ficar mais à vontade de ouvir algo que é mais natural. Quando você faz o segundo take, algumas coisas você já pensou em fazer diferente, então prejudicou a espontaneidade. O primeiro take é sagrado, principalmente quando todo mundo conhece a música. Esse disco é, basicamente, primeiro e segundo take. Eu não sei lhe afirmar o quanto precisamente, mas por exemplo, a Chica Hermosa, Aos Poucos do Bruno Migotto e Ananda Moy Ma saíram todas no primeiro take. Deixe o Coltrane em Paz eu não tenho tanta certeza se foi no primeiro ou segundo, e as restantes foram todas no segundo take. Mais do que dois eu não faço, porque vira um bonequinho e você mata a música.

 

Site:

www.michelleme.com

 

MySpace:

www.myspace.com/michellemeguitarist

 







 

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