Analisando o seu estudo de música
Por: Bruno Facio
Qualquer estudo é baseado em regras. Partindo-se
dessa máxima, inúmeras conclusões são
tomadas e levadas às últimas conseqüências.
No estudo de música isso não poderia ser diferente.
Pode parecer mentira, mas “estudar muito” pode
não significar a expansão de seus horizontes
e sim a criação de inúmeras limitações
e equívocos. Não estou dizendo que todos devem
parar de estudar agora, mas que devemos prestar mais atenção
no “como” estudamos do que no “quanto”.
Normalmente a maioria dos alunos gosta de dividir seus estudos
em duas partes que, à primeira vista, podem parecer
distintas: a teoria e a prática. Estudamos Harmonia,
Contraponto, Percepção, Solfejo, História
da Música, História das Artes e, quando vamos
praticar o instrumento, tudo isso parece ficar tão
longe que acaba sendo “fossilizado” em nossa
memória apenas como curiosidade. Essa fragmentação
de informações junto à sua diversidade
de fontes (livros, tratados, correntes conceituais etc...)
parecem nunca chegar até a realidade do estudo do
instrumento, e o estudo do instrumento (métodos,
técnica, repertório, interpretação,
etc...) não “compartilha” essas informações.
São muitos conceitos e não se sabe muito bem
o que fazer com eles. Talvez seja essa a parte mais difícil
do ato de estudar música. Mais difícil até
do que ficar concentrado horas e horas praticando no instrumento
ou debruçado sobre os livros. Fazer as inúmeras
conexões necessárias para transformar todos
esses fragmentos (dispersos no “limbo” entre
a teoria e a prática) em um único bloco consistente
de conhecimento, exige um esforço intelectual demasiado
intenso.
Creio, porém, que a saída para esta questão
seja encontrada no óbvio. O estudante de música
estuda MÚSICA! Quando temos por objetivo estudar
esta ciência como todo e não como parte, as
“peças” começam a se encaixar.
Grosso modo, deixamos de estudar simplesmente as “matérias”
(Harmonia, Percepção, História...)
indo além dos exercícios e passando a fazer
o encontro disso tudo com a nossa música do dia-a-dia.
Essa idéia não é um convite à
transgressão das regras (essas estão presentes
para auxiliar no aprendizado como parte do processo), nem
mesmo um “macete” que solucionará todos
os problemas com um passe de mágica. Não deixaremos
de estudar as “matérias”. Somente não
as trataremos mais como partes isoladas. Citando um antigo
professor, temos de estudar “com segundas intenções”.
Sempre que nos deparamos com algo novo temos de tentar aproximá-lo
do nosso cotidiano para que naquele momento inicial do aprendizado,
de alguma forma, ele se integre à parte útil
do nosso conhecimento. Estudar “mal-intencionado”
faz com que possamos encontrar em informações,
que a priori não tenham nenhuma utilidade, eficientes
soluções para problemas do nosso cotidiano
musical. Não é somente somar teoria e prática
ou usar as regras e conceitos que aprendemos, nem mesmo
abandonar tudo em nome do experimentalismo. Insisto, temos
de tornar o estudo global. Podemos estudar técnica
pura junto com solfejo; harmonia com interpretação;
improvisação com contraponto e assim por diante
sem prejudicar nenhuma das habilidades. Embora em determinados
períodos do estudo tenhamos de dar atenção
especial a cada uma delas, podemos ficar de três a
quatro horas concentrados no instrumento e aproveitar esse
tempo também para exercitar outras habilidades além
da técnica e da interpretação. Não
somos máquinas, portanto nossas atividades podem
ser otimizadas de forma muito inteligente. Estude sempre
de forma consciente. Quando a atividade se tornar mecânica,
pare e comece tudo outra vez. Lembre-se: mais vale a qualidade
do que a quantidade.
Nesse momento tudo pode parecer muito óbvio, e realmente
é. Não é à toa que durante séculos
se ensina música dessa forma, seja ela popular, erudita,
caipira, brega...(não gosto de diferenciar, chamo
sempre de música). Na maioria das vezes, nós
começamos a estudar sem saber porque temos de aprender
tudo aquilo. Mas essa discussão envolve problemas
que vão além das nossas responsabilidades
e, como diria Tom Jobim: “Daqui pra frente é
bobagem”. Olhar através do presente é
tarefa difícil, mas possível. Portanto, some
todo o seu conhecimento e formule a sua forma de estudar.
Peça ajuda, troque informações, leia
sobre outros assuntos de seu interesse, exercite a sua curiosidade.
Ouça tudo o que estiver à sua disposição
e que julgar de qualidade. Barroco, jazz, renascença,
rock, samba, ópera, MPB, todos os estilos têm
a mesma essência: a música.
Bruno
Facio: É Bacharel em Composição e Regência
pela FAAM. Membro da diretoria da Aparc - Associação
Paulista de Regentes Corais - e do Collegium Musicum de
São Paulo. É professor do Conservatório
Musical Souza Lima onde dirige o Coral Souza Lima e o Madrigal
Souza Lima. Eterno aluno de Música.
Contato: bfacio@uol.com.br |