Helloween
“Better Than Raw”
15 faixas – 1:13:53´
(Dynamo Records)
Nota: 9,5
Simplesmente fascinante! Não só pela maestria musical, como também devido à profunda erudição empregada na composição das letras e à sutil tentativa de mudar a sonoridade da banda para acompanhar a nova onda que começava a permear no mainstream.
“Deliberately Limited Preliminary Prelude in Z” introduz o caro ouvinte à incrível porrada avassaladora das faixas posteriores, registrando que o Helloween mostrava novamente o seu peso na cena. A metafísica também se manteve intacta, a exemplo do seu antecessor “The Time Of The Oath”.
“Better Than Raw” traz um cenário frisando elementos teológicos cristãos como em “Revelation” (livro do apocalipse em inglês), que nos remete à segunda "vinda de Cristo à Terra", segundo a tradição cristã e conforme descrições contidas literalmente no referido livro.
“Midnight Sun” também é uma expressão que tem a ver com um contexto profético cristão, que em poucas palavras nos apresenta a hipótese de que mentiras e falsidade não existirão após a já mencionada volta de Cristo, pois a luz do ‘sol da meia-noite’ - mais uma expressão que no meio cristão faz referência a Cristo, - brilhará de tal forma que ‘toda a verdade ocultada pelas sombras do pecado serão reveladas’.
“Lavdate Dominvm”, numa tradução totalmente independente minha (e bem tosca) do latim para o português, quer dizer "Louvem a Deus". No mesmo contexto ainda [peraí que eu estou terminando!], em "A Game We Shouldn't Play", que é uma das quatro faixas bônus desta versão estendida do álbum, adivinha quem é o ‘sujeito’ por trás do pronome masculino em terceira pessoa na música toda? Sim, senhor leitor, acredite! Foi daí que a ‘banda-mãe’ do metal melódico provavelmente tirou inspiração.
A entrevista contida nesta nova versão do álbum (N.R.: este álbum originalmente foi lançado em 1998 e esta é uma nova versão lançada no Brasil pela Dynamo com várias bônus e encarte modificado) no encarte dá uma pequena pista quanto à faixa “Hey Lord!”. Enfim... Mesmo com todo este contexto ‘cristão’, o disco agrada mesmo aos fãs mais ortodoxos. A seqüência de músicas é muito forte. Não há baladas neste disco, o que o deixou com uma característica pesada do início ao fim.
O clima apocalíptico das faixas também traz críticas às manipulações de massa que instituições como a igreja e o governo são capazes de produzir. Este é o caso de “Don't Spit on My Mind”. Mas nem só de polêmica vive o metal: a excelente “Push” é uma música de propriedades totalmente antidepressivas.
“Falling Higher” é uma ode ao heavy metal, este nosso tão querido gênero musical, escrita num período onde se falava da morte do rock, mediante o aparecimento das bandas grunge de Seattle e das bandas industriais que começavam a despontar no mainstream. “Perfect Gentleman” é meio que ‘uma tiração de sarro’ com a vaidade. Interessante ouví-la novamente, sobretudo nestes tempos de metrossexualidade, über-sexualidade etc.
A faixa bônus “Back On The Ground” é bem legal e quase exclusiva, pois da mesma forma que a instrumental “Moshi Moshi-Shiki No Uta” (se alguém souber o que isto quer dizer em português e quiser nos informar, fico grato) são músicas presentes anteriormente só em singles e, no caso da primeira, na versão japonesa do álbum.
Apesar de não ter feito o Helloween virar uma banda de magnatas, este álbum é um bom marco no heavy metal e conseguiu arrancar calorosos elogios da então sisuda e altamente crítica imprensa inglesa, que à época do seu lançamento chegou a dizer que este era o melhor álbum do Helloween desde os “Keepers I e II”. Semelhantemente ao ótimo álbum anterior, constata-se que todos os membros participaram da composição das músicas. Com um grupo harmônico e coeso, o resultado não poderia ser melhor. Sobretudo, esta versão expandida com direito a entrevista no encarte é simplesmente ótima. Uma aula de heavy metal.
Marcos Franke
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