StomachalCorrosion
“Transtorno Obsceno Repulsivo”
19 faixas – 33:24’
(Nosferatu Records)
Nota: 7,5
A história deste “Transtorno Obsceno Repulsivo”, o primeiro álbum do StomachalCorrosion, pode ser descrita como a realização de um grande sonho. É verdade que toda banda que chega ao lançamento de um CD, de fato, acaba por realizar o seu sonho. Mas a história da banda até chegar aqui é uma verdadeira trajetória de luta para manter este sonho vivo. O grupo existe desde 1991 e, desde então, figurou apenas em demos K7, fitas de VHS, LPs e Split-CDs; passou por inúmeras mudanças de formação e até de sonoridade. Sofreu também com picaretagens, produtores mal-intencionados e falsas promessas, além de extremas dificuldades financeiras e desilusões que acabaram colocando fim às atividades do grupo por algumas vezes. Entretanto, o guitarrista Charlie Curcio não desistiu de fazer a banda virar uma realidade e, após 16 anos (este álbum foi lançado no ano passado), a banda viu este sonho se realizar. Então, o que tenho em mãos é uma verdadeira lição de persistência. Musicalmente, a banda pratica um mix de grind, splatter e crust, com as faixas sendo divididas, com algumas cantadas em inglês e outras em português. Inclusive, o grupo inovou ao cantar a faixa “Homo Sufero” em Esperanto. Para quem não sabe, o Esperanto é um idioma universal criado pelo oftalmologista polonês Ludwik Lejzer Zamenhof em 1887 para facilitar a comunicação entre os povos de todo o mundo. Em relação as músicas cantadas em inglês, a maioria delas são regravações dos primeiros anos do grupo, e a razão de a banda ter feito isso foi porque eles queriam dar a devida qualidade para canções tão importantes de sua carreira. Inclusive, quase não há diferença entre as faixas cantadas em português com as cantadas em inglês, mesmo porque quem está acostumado com sonoridades mais extremas sabe que o vocal – extremamente rasgado e gutural – desses estilos raramente são decifráveis. Aliás, que pancadaria agradável! Estilos como o punk, hardcore, splatter, death metal e crust se mostram mais do que firmes em bases simples, porém, extremamente funcionais, riffs alucinantes, andamentos caóticos, vocais cavernosos e músicas que raramente ultrapassam os dois minutos de duração. E quando a coisa parte para uma linha mais desenfreada fica ainda mais interessante. A punk “Worthless Words” é uma boa prova disso. De fato, o som não é muito diferente do que você já ouviu no estilo, mas tem personalidade e uma garra que não tem como você não se impressionar. Na questão musical, o Agathocles seria uma referência mais próxima, apesar de o grupo não se limitar apenas a essa comparação. A preocupação com a produção, o que não é uma constante no estilo, também vale nota por ter dado aquele punch e evidenciado os instrumentos de forma correta, sem aquela embolação das produções medianas do gênero onde tudo soa sem distinção. Enfim, mais do que um sonho que se tornou realidade, este “Transtorno Obsceno Repulsivo” vem para coroar quase duas décadas de persistência de um grupo que há muito vem fazendo o seu nome nos bastidores do underground. Antes tarde do que nunca.
Vinicius Mariano |