Revista Souza Lima

LOU REED

 

Transformer (1972)

Transformer
11 faixas (Lado A:  5, Lado B: 6)
36'40â€
RCA Victor (1972)

 

 

Lewis Allan Reed, mais conhecido como Lou Reed, é compositor, cantor, guitarrista e ex-vocalista do Velvet Underground. Figura presente na cena punk de Nova Iorque, Reed se reunia no CBGB

(extinto pub underground) para falar de música, drogas e relacionamentos, ao mesmo tempo em que aprimorava cada vez mais o conteúdo literário de suas composições.

 

Com poesias “de esquinaâ€, criava a atmosfera intimista em torno de si. Muitas vezes se portava de maneira ácida, em outras se tornava indiferente e distante de tudo. Ainda assim, Lou era intenso e admirado por artistas da época, entre eles David Bowie, Iggy Pop e os integrantes do New York Dolls.

 

O movimento contracultural que nascia no CBGB seria responsável por uma grande mudança na estética musical da época. As letras passavam a ser mais poéticas e repletas de metáforas, retratando o submundo das ruas da cidade. As apresentações não contavam com grandes produções (com exceção do N.Y. Dolls), o palco era território para exteriorizar todo o surrealismo das linhas. Vale lembrar de Patti Smith, grande intérprete das próprias poesias. Lou Reed juntou-se a Sterling Morrison (guitarra), John Cale (baixo), Doug Yule (substituto de Cale), Maureen Tucker (bateria) e Nico (voz). Havia passado pela bateria Angus MacAlise, substituído pouco tempo depois.

 

Com o Velvet, Reed gravou músicas que influenciaram (e influenciam) outros grupos. Dentre as canções estão Venus In Furs (The Velvet Underground and Nico – 1967), There She Goes Again, Here She Comes Now (White Light/White Heat – 1968) além de Sweet Jane, Rock and Roll e Who Loves The Sun, do disco Loaded. O Velvet reunia em seu som temas como prostituição, drogas, ocultismo, enfim, elementos que sustentavam a realidade urbana no final dos anos 60.

 

Em 1971, o compositor deixa a banda. Seu primeiro disco solo não foi bem aceito pelo público. Próximo do fracasso, Reed levou tempo para se recuperar do ocorrido. Contudo, no ano seguinte ele lança Transformer, uma das obras primas do rock mundial. Desta vez, com Bowie e Mick Ronson na produção, o artista ressurge com a imagem voltada para o Glam, influenciado pelo “camaleão do rockâ€. Mas engana-se quem pensa que suas composições perderam o conteúdo “undergroundâ€.

 

O rock’n’roll cru de Vicious abre o álbum. Na letra, Reed parece correr de alguém que gostaria de evitar. Mas para escrever uma música inteira sobre esse tal “alguémâ€, é porque sua presença não é tão indesejada assim. Pode ser uma referência às groupies da época ou os jornalistas que adoravam ouvir suas histórias. Em seguida, o clima intimista de Andy’s Chest faz jus ao seu compositor.  Mas é a faixa Perfect Day que traz todo o poder de Transformer.

 

A música retrata uma viagem ambígua quando se trata de interpretação. Pode-se imaginar uma pessoa incapaz de lidar com relacionamentos e que opta pela solidão, o que a impede de seguir adiante. Ou simplesmente, descreve uma overdose de heroína que separa, por um bom tempo, a consciência do próprio corpo, como a descrição feita por Danny Boyle, no filme Trainspotting. A cena e a música parecem se misturar, como droga e sangue.

 

Hangin’ Roud quebra o clima “surreal†e despeja todo o seu mau humor na letra. “Harryâ€, o garoto rico que se tornaria padre e enterrou o próprio pai. Já “Jeanny†é a garota que achava saber tudo, fumava cigarros mentolados e transava no corredor. Reed deixa claro que não se interessa por nada disso. Também fala de “Cathyâ€, a que não suportava cheiro de cigarro.

 

Walk on the Wild continua na linha da faixa anterior, ao resgatar e descrever personagens. Lou deposita na letra (através das entrelinhas) o submundo de Nova Iorque e as pessoas que o compõe. Para ele, tudo soa familiar. No lado B do disco, uma das melhores faixas: Satellite of Love.

 

O piano conduz a música e divide espaço com efeitos de voz e backing vocals bem explorados (um não se sobressai ao outro, o que reforça a harmonia da canção). As metáforas que Reed usa chegam a ser parecidas com as de outros artistas da época Bowie, como por exemplo: “Satellite's gone way up to Mars. Soon it'll be filled with parkin' carsâ€. Talvez, naquela época Marte estivesse “em altaâ€.

 

A última faixa, Goodnight Ladies, deixa clara a ironia ou não do rocker. Traz em sua essência a figura de alguém que conhece todo o caos da rua e vive ele diariamente, mas que ao se despedir, volta para casa imaginando o conforto e comodismo de uma vida ordinária. Sem telefonemas, numa solitária noite de sábado.

 

Sem dúvidas, um disco indispensável para aqueles que gostam do rock livre de preocupações comerciais e exageros estéticos. Lou Reed consegue passar para suas músicas todos os sentimentos que muitos evitam, seja por moralismo ou pela dificuldade em expressá-los. Não é por acaso que Andy Warhol, conceituado artista plástico, foi financiador do músico e sua ex-banda no início de carreira.

 

Transformer retrata bem o som alternativo e ao mesmo tempo experimental que se renova a cada faixa, sem perder a subjetividade do escritor, poeta e compositor por trás dos acordes.

 

Veny Santos

 

Faixas:

 

Lado A.


1. Vicious

2. Andy’s Chest

3. Perfect Day

4. Hangin’ Around

5. Walk on the Wild Side

 

Lado B.


1. Make Up

2. Satellite of Love

3. Wagon Wheel

4. New York Telephone Conversation

5. Im’ So Free

6. Goodnight Ladies

 

 

 

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