O Álbum do Ano
Por Michel Leme
É curioso ver um disco como "River - The Joni Letters" de Herbie Hancock ganhar o Grammy de "Álbum do Ano" (também ganhou como "Melhor álbum de Jazz Contemporâneo"). Ao meu ver, muitas coisas estão nas entrelinhas deste fato que, inclusive, foi destacado como surpresa pela imprensa.
Eu ouvi o disco. É bem tocado, tem bons arranjos, belas harmonias e momentos bons – principalmente por parte do senhor Wayne Shorter, que parece não estar nem aí para a assepsia reinante no CD e faz o "trabalho sujo", ou seja, toca pra cacete! E tem as participações das cantoras Tina Turner, Norah Jones, a própria Joni Mitchell (cujas letras inspiraram o projeto todo), Corinne Bailey Rae e a brasileira Luciana Souza. Na última faixa, Leonard Cohen recita "Jungle Line".
Importante dizer que das dez músicas do disco, quatro são instrumentais. Isso, na minha opinião, é significativo para o gênero, visto que representa 40% de um disco premiado como álbum do ano (independente de ser pelo Grammy ou por qualquer outra instituição). Mas, em se tratando de Herbie Hancock, é um disco muito, mas muito comportado e comercial se comparado a álbuns anteriores – os quais fizeram seu nome tornar-se sinônimo de qualidade.
Mas a questão não é julgar se o disco merece ou não o Grammy. Em primeiro lugar, eu não usaria tal discurso, simplesmente por não dar crédito a uma premiação do tipo "nós fazemos e nós mesmos premiamos o que fazemos". Em segundo lugar, o disco é bom, se comparado ao que vem sendo produzido atualmente nos Estados Unidos da América.
A questão principal é: qual o recado que a indústria fonográfica (ou, por extensão, cultural) está tentando passar por meio desta premiação?
Para mim está claro: "o artista pode ter todo o talento do mundo como compositor, instrumentista, improvisador, arranjador, etc, mas precisará dos artistas que NÓS projetamos para ter sucesso de verdade". É como se isso desse sustentação para argumentos como "só quando o Herbie gravou com a Norah Jones e com a Tina Turner é que conseguiu o prêmio de álbum do ano". É imbecil, mas tem o aval do Grammy!
Ver um artista de excelência como Herbie Hancock ser “agraciado” com esse prêmio me faz lembrar do cinismo de alguns canais de TV que, sendo obrigados por lei a exibir programas educativos o fazem, mas às 5h da manhã! Esse cinismo chega no ponto máximo ao observar que o prêmio veio justamente no momento em que o pianista lança seu disco mais adequado ao “modus operanti” vigente. Ou seja: a oportunidade de fazer a média foi agarrada, antes que o Sr. Hancock grave um outro disco mais radical ou de vanguarda.
Para tentar esclarecer essas manobras da chamada indústria cultural, recorro ao filósofo alemão Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969), que foi o primeiro a negar o termo "cultura de massas" para criar o termo "Indústria Cultural", que segundo ele "impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente". Ou seja, o homem, para a indústria cultural, é um mero objeto. Por meio do massacre constante da mídia, ele se torna uma máquina de consumir qualquer coisa. Adorno ainda coloca: "interessada nos homens apenas enquanto consumidores ou empregados, a Indústria Cultural reduz a humanidade, em seu conjunto, assim como cada um de seus elementos, às condições que representam seus interesses".
É importante deixar claro que a massificação conquista o consumidor pela familiaridade, e não pelo gosto. Citando mais uma vez Adorno, no artigo “O fetichismo na música e a regressão da audição”, ele diz: "Se perguntarmos a alguém se 'gosta' de uma música de sucesso lançada no mercado, não conseguiríamos furtar-nos à suspeita de que o gostar e o não gostar já não correspondem ao estado real, ainda que a pessoa interrogada se exprima em termos de gostar e não gostar. Em vez do valor da própria coisa, o critério de julgamento é o fato de a canção de sucesso ser conhecida de todos; gostar de um disco de sucesso é quase exatamente o mesmo que reconhecê-lo".
Detalhe: esse texto é de 1938! E traduz exatamente uma coisa que acontece hoje: o ser mais desavisado ouve uma atrocidade no rádio, acha um lixo e ri. Mas, depois de uma semana, já está assoviando a melodia e até a introduçãozinha do teclado. Daí a comprar o disco é um passo! Não me canso de dizer: a cultura genuína não virá até você. O que chega fácil, fácil - os "mais vendidos", os "mais premiados", etc. - é exatamente o que querem que você consuma.
E depois do álbum do ano para Herbie Hancock quem será o próximo contemplado? Sonny Rollins? Ornette Coleman? Acho que não. Só se eles gravarem com alguém como Justin Timberlake ou Beyoncé. Aí sim, existiria um gancho para o prêmio, principalmente por não haver nada que contestasse o 'status quo', mas, sim, que só o valorizasse.
De minha parte, continuo achando graça de quem acredita na importância dessas premiações e, mais ainda, dos artistas que gravam discos com a quantidade mínima de músicas para poderem ser indicados ao Grammy (risos, risos e mais risos).
Fique esperto! Ou assista à próxima cerimônia de entrega...
Site:
http://www.michelleme.com/
*agradecimento especial a Bruno Bacchi (Single Note Comunicação) pela contra-argumentação



